sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ENTRE O MITO E A EXPLORAÇÃO: A VIDA NAS FAZENDAS DO VALE

 


ÁGUA FUNDA

RUTH GUIMARÃES

EDITORA 34 – 1ª – 2018

A leitura de Água Funda veio logo após Torto Arado, e a aproximação entre os dois livros é inevitável. Ambos são fundamentais para compreender a vida nas fazendas brasileiras a partir do ponto de vista de quem trabalha a terra — e não dos fazendeiros, de suas famílias ou da narrativa oficial que sempre lhes deu centralidade.

Ruth Guimarães nos conduz ao Vale do Paraíba, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, e ali reconstrói o cotidiano caipira da região, marcado pela herança do café e pela presença de ex-escravizados lançados à própria sorte após a abolição. Não se trata de uma paisagem idílica, mas de um mundo atravessado por precariedade, hierarquias rígidas e permanências coloniais.

Há, nesse romance, uma dimensão de reconhecimento. Para quem viveu ou conviveu com essa região, a linguagem, as crenças, as comidas e o modo de vida do caboclo reaparecem com familiaridade. Ruth Guimarães escreve a partir da escuta: a fala não é caricata nem forçada, mas orgânica, próxima da oralidade que ela própria conheceu.

Muitas leituras classificam Água Funda como literatura fantástica. Essa rotulação, no entanto, empobrece o livro. O que aparece aqui é cultura, folclore e sistema de crenças, aquilo que, como lembra Itamar Vieira Junior, talvez devesse ser chamado simplesmente de religião. O caboclo acredita em assombração, praga, maldição, encantamento. A Mãe de Ouro, a Mãe d’Água, a Iara, a sereia: essas figuras não surgem como exotismo, mas como parte constitutiva da vida cotidiana e da forma como o mundo é interpretado.

O romance se organiza em torno de duas narrativas centrais: a de Sinhá Carolina e a de Joca. Este último é enfeitiçado pela Mãe de Ouro, num encantamento que ecoa o mito das sereias que arrastam os homens para o fundo do mar. No seu caso, o deboche e a irreverência acionam a praga — embora o feitiço já estivesse, de algum modo, em curso. O sobrenatural não rompe a realidade: ele a aprofunda.

Ruth Guimarães não romantiza a pobreza, mas tampouco faz dela espetáculo. Há alegria possível, afetos, pequenas felicidades. Ainda assim, o livro carrega uma denúncia clara: o recrutamento de trabalhadores para o sertão, seduzidos por promessas de ganho maior, que se revelam armadilhas brutais. Ali, são tratados pior do que escravizados. Não é um tema encerrado no passado — basta lembrar que o trabalho análogo à escravidão ainda persiste nas fazendas brasileiras.

Água Funda é também a história do próprio Vale do Paraíba e de suas transformações: das fazendas dos coronéis à chegada das grandes companhias, mudanças que pouco ou nada alteraram a vida dos trabalhadores. A exploração permanece, apenas muda de nome.

Ruth Guimarães nos entrega, assim, um livro belíssimo e necessário sobre esse povo das fazendas e das pequenas cidades do Vale — um retrato atento, sem exotização, que inscreve suas vidas, crenças e sofrimentos no centro da literatura brasileira.



Ruth Guimarães nasceu em Cachoeira Paulista em 1920 e faleceu na mesma localidade em 2014. Foi poetisa, contista, cronista, tradutora e romancista.

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