ÁGUA FUNDA
RUTH GUIMARÃES
EDITORA 34 – 1ª – 2018
A leitura de Água
Funda veio logo após Torto Arado, e a aproximação
entre os dois livros é inevitável. Ambos são fundamentais para compreender a
vida nas fazendas brasileiras a partir do ponto de vista de quem trabalha a
terra — e não dos fazendeiros, de suas famílias ou da narrativa oficial que
sempre lhes deu centralidade.
Ruth Guimarães nos conduz ao
Vale do Paraíba, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, e ali reconstrói o
cotidiano caipira da região, marcado pela herança do café e pela presença de
ex-escravizados lançados à própria sorte após a abolição. Não se trata de uma
paisagem idílica, mas de um mundo atravessado por precariedade, hierarquias
rígidas e permanências coloniais.
Há, nesse romance, uma dimensão
de reconhecimento. Para quem viveu ou conviveu com essa região, a linguagem, as
crenças, as comidas e o modo de vida do caboclo reaparecem com familiaridade.
Ruth Guimarães escreve a partir da escuta: a fala não é caricata nem forçada,
mas orgânica, próxima da oralidade que ela própria conheceu.
Muitas leituras classificam Água
Funda como literatura fantástica. Essa rotulação, no entanto,
empobrece o livro. O que aparece aqui é cultura, folclore e sistema de crenças,
aquilo que, como lembra Itamar Vieira Junior, talvez devesse ser chamado
simplesmente de religião. O caboclo acredita em assombração, praga, maldição,
encantamento. A Mãe de Ouro, a Mãe d’Água, a Iara, a sereia: essas figuras não
surgem como exotismo, mas como parte constitutiva da vida cotidiana e da forma
como o mundo é interpretado.
O romance se organiza em torno
de duas narrativas centrais: a de Sinhá Carolina e a de Joca. Este último é
enfeitiçado pela Mãe de Ouro, num encantamento que ecoa o mito das sereias que
arrastam os homens para o fundo do mar. No seu caso, o deboche e a irreverência
acionam a praga — embora o feitiço já estivesse, de algum modo, em curso. O
sobrenatural não rompe a realidade: ele a aprofunda.
Ruth Guimarães não romantiza a
pobreza, mas tampouco faz dela espetáculo. Há alegria possível, afetos,
pequenas felicidades. Ainda assim, o livro carrega uma denúncia clara: o
recrutamento de trabalhadores para o sertão, seduzidos por promessas de ganho maior,
que se revelam armadilhas brutais. Ali, são tratados pior do que escravizados.
Não é um tema encerrado no passado — basta lembrar que o trabalho análogo à
escravidão ainda persiste nas fazendas brasileiras.
Água Funda
é também a história do próprio Vale do Paraíba e de suas transformações: das
fazendas dos coronéis à chegada das grandes companhias, mudanças que pouco ou
nada alteraram a vida dos trabalhadores. A exploração permanece, apenas muda de
nome.
Ruth Guimarães nos entrega,
assim, um livro belíssimo e necessário sobre esse povo das fazendas e das
pequenas cidades do Vale — um retrato atento, sem exotização, que inscreve suas
vidas, crenças e sofrimentos no centro da literatura brasileira.

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