sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

MULHERES, MEMÓRIA E RESISTÊNCIA EM ZAMI


 

ZAMI. UMA NOVA GRAFIA MEU NOME, UMA BIOMITOGRAFIA

AUDRE LORDE

ELEFANTE EDITORA – 2021.


Em Zami: Uma Nova Grafia do Meu Nome, Audre Lorde constrói uma narrativa que é simultaneamente autobiográfica, poética e política. Diferente de uma autobiografia convencional, o livro se aproxima de uma “biomítica”, termo que Lorde usa para articular memórias pessoais, histórias coletivas de mulheres negras e elementos de ficção poética. O resultado é um retrato profundo da formação de uma identidade atravessada pelo racismo, pelo sexismo, pela homofobia e pelo desejo.

O livro acompanha Lorde desde a infância em Nova York até sua juventude e vida adulta, explorando relações familiares, amizades, amores e descobertas de gênero e sexualidade. O título, que propõe uma “nova grafia” do nome, simboliza a tentativa de reconstruir-se e dar visibilidade à própria existência — algo que a sociedade branca, patriarcal e heteronormativa frequentemente invisibiliza ou desvaloriza.

Um dos aspectos mais poderosos da narrativa é a experiência de ser mulher negra e lésbica. Lorde mostra como o racismo e o sexismo não se manifestam apenas fora de casa, mas também nos círculos íntimos e nas próprias relações afetivas. Ao mesmo tempo, a autora revela como a construção de laços afetivos entre mulheres negras e marginalizadas é uma forma de resistência e de afirmação identitária. A memória e a narrativa tornam-se armas para a preservação da subjetividade e para a criação de comunidades de cuidado.

O livro também é um mergulho na sexualidade e no desejo, não como escândalo, mas como campo de autoconhecimento e liberdade. Ao narrar seus primeiros amores, encontros e descobertas, Lorde subverte a lógica de um mundo que reprime corpos e desejos fora da norma. A sexualidade, nesse sentido, é política: afirmar o próprio prazer é desafiar a opressão, resistir à invisibilidade e reivindicar existência.

Além disso, Zami é uma obra sobre ancestralidade e memória coletiva. Ao descrever a vida de sua mãe, tias, amigas e mulheres da comunidade negra, Lorde cria um mosaico de experiências que ultrapassa o individual e conecta passado, presente e futuro. É a memória das mulheres negras que sustenta a narrativa, conferindo densidade histórica e política à experiência pessoal.

Lorde escreve com poesia e precisão, transformando memórias em reflexão crítica. Zami não é apenas um relato de vida, mas um manifesto sobre identidade, resistência e autoafirmação. Ler Lorde é perceber que narrar a própria história é, sempre, um ato político: uma forma de existir, resistir e criar espaços de liberdade.


Audre Lorde nasceu em Nova Iorque, no Harlem em 1934 e faleceu em Santa Cruz, Ilhas Virgens Americanas em 1992. Foi filósofa, escritora, poetisa e ativista feminista. 

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