ZAMI. UMA
NOVA GRAFIA MEU NOME, UMA BIOMITOGRAFIA
AUDRE
LORDE
ELEFANTE
EDITORA – 2021.
Em Zami: Uma Nova Grafia do Meu Nome,
Audre Lorde constrói uma narrativa que é simultaneamente autobiográfica,
poética e política. Diferente de uma autobiografia convencional, o livro se
aproxima de uma “biomítica”, termo que Lorde usa para articular memórias
pessoais, histórias coletivas de mulheres negras e elementos de ficção poética.
O resultado é um retrato profundo da formação de uma identidade atravessada
pelo racismo, pelo sexismo, pela homofobia e pelo desejo.
O livro acompanha Lorde desde a infância em
Nova York até sua juventude e vida adulta, explorando relações familiares,
amizades, amores e descobertas de gênero e sexualidade. O título, que propõe
uma “nova grafia” do nome, simboliza a tentativa de reconstruir-se e dar
visibilidade à própria existência — algo que a sociedade branca, patriarcal e
heteronormativa frequentemente invisibiliza ou desvaloriza.
Um dos aspectos mais poderosos da narrativa é
a experiência de ser mulher negra e lésbica. Lorde mostra como o racismo e o
sexismo não se manifestam apenas fora de casa, mas também nos círculos íntimos
e nas próprias relações afetivas. Ao mesmo tempo, a autora revela como a
construção de laços afetivos entre mulheres negras e marginalizadas é uma forma
de resistência e de afirmação identitária. A memória e a narrativa tornam-se
armas para a preservação da subjetividade e para a criação de comunidades de
cuidado.
O livro também é um mergulho na sexualidade e
no desejo, não como escândalo, mas como campo de autoconhecimento e liberdade.
Ao narrar seus primeiros amores, encontros e descobertas, Lorde subverte a
lógica de um mundo que reprime corpos e desejos fora da norma. A sexualidade,
nesse sentido, é política: afirmar o próprio prazer é desafiar a opressão,
resistir à invisibilidade e reivindicar existência.
Além disso, Zami é uma obra sobre ancestralidade
e memória coletiva. Ao descrever a vida de sua mãe, tias, amigas e mulheres da
comunidade negra, Lorde cria um mosaico de experiências que ultrapassa o
individual e conecta passado, presente e futuro. É a memória das mulheres
negras que sustenta a narrativa, conferindo densidade histórica e política à
experiência pessoal.
Lorde escreve com poesia e precisão,
transformando memórias em reflexão crítica. Zami não é apenas um relato
de vida, mas um manifesto sobre identidade, resistência e autoafirmação. Ler
Lorde é perceber que narrar a própria história é, sempre, um ato político: uma
forma de existir, resistir e criar espaços de liberdade.
Audre Lorde nasceu em Nova Iorque, no Harlem em 1934 e faleceu em Santa Cruz, Ilhas Virgens Americanas em 1992. Foi filósofa, escritora, poetisa e ativista feminista.


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