ÁGUA DE BARRELA
ELIANA ALVEZ CRUZ
MALÊ – 5ª ED. – 2018.
Água de Barrela
é um livro de fôlego e de memória. A partir da história das mulheres de sua
própria família, Eliana Alves Cruz constrói um relato poderoso da experiência
negra no Brasil, atravessando cerca de 150 anos de história — do tráfico
negreiro ilegal, já proibido por lei, passando pela Lei do Ventre Livre, pela
abolição formal com a Lei Áurea, até alcançar o presente.
O que se revela nesse percurso é
menos uma narrativa de superação e mais uma exposição crua daquilo que nunca
foi realmente interrompido: a violência estrutural, o abandono do Estado, a
negação sistemática da cidadania plena à população negra. Trazidos à força,
explorados até o limite, libertos apenas no papel, os corpos negros seguem
sendo empurrados para as margens, sem que lhes seja garantido um lugar de
igualdade na sociedade brasileira.
Mas Água de Barrela
é, sobretudo, um livro sobre mulheres. Mulheres negras que sustentaram
famílias, memórias e afetos em meio à precariedade extrema. Há aqui dignidade,
força e determinação, não como virtudes romantizadas, mas como estratégias de
sobrevivência. As dores, as perdas e as humilhações encontram respiro nas rodas
de samba, no candomblé, na palavra compartilhada, nos rituais que mantêm viva a
possibilidade de sentido e esperança.
O romance expõe, com clareza
incômoda, o funcionamento do racismo cotidiano e estrutural, revelando também o
comportamento da elite branca frente à população negra: a naturalização da
desigualdade, o distanciamento moral, a herança não elaborada da escravidão.
Esse contraste aparece de forma contundente na oposição entre a família Tosta —
ligada historicamente à posse de pessoas escravizadas — e a família de Damiana,
cuja trajetória é narrada a partir de seu centenário, contado pela bisneta, a
própria autora.
Ao entrelaçar essas histórias,
Eliana Alves Cruz não apenas recupera memórias silenciadas, mas desmonta a
ideia de que o passado escravista é algo distante. Água de Barrela
mostra que a história das mulheres negras é também a história do Brasil — uma
história ainda em disputa, ainda ferida, ainda exigindo escuta e
responsabilidade.


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