SILAS MARNER: O TECELÃO DE RAVELOE
GEORGE ELIOT
JOSÉ OLYMPIO – 1ª ED. 2017
Há livros que encontram o leitor
no momento certo. Silas Marner é um desses. Em
tempos difíceis, George Eliot oferece um romance que, sem ingenuidade, insiste
em pensar a possibilidade da mudança individual, da reparação e da bondade —
mesmo em um mundo atravessado pelo egoísmo, pelo dinheiro, pela mentira e pela
culpa.
A narrativa acompanha a vida do
tecelão Silas Marner, um homem marcado por sucessivas perdas, injustiças e
exclusões. Vítima de uma acusação falsa e de uma comunidade religiosa rígida e
hipócrita, Silas se afasta do convívio social e passa a viver de forma isolada,
quase automática, concentrando sua existência na repetição do trabalho e na
acumulação de dinheiro. Não por ambição, mas por medo: o ouro torna-se seu
único vínculo com o mundo, uma falsa promessa de segurança.
George Eliot constrói, ao longo
do romance, uma crítica severa aos valores sociais e morais de sua época,
crítica que permanece atual. A religião aparece como espaço de controle e
exclusão; a vida comunitária, como lugar de julgamentos precipitados; o
dinheiro, como substituto empobrecido dos vínculos humanos. Ainda assim, Eliot
não cai no cinismo. Há, em Silas Marner, uma aposta
deliberada na possibilidade de transformação.
Uma frase do livro sintetiza
esse movimento: “Quando um homem fecha a porta para uma
bênção, ela pertence a quem a acolhe.” A ideia de bênção, aqui,
não é religiosa, mas ética. O que se perde pela recusa, pelo endurecimento ou
pelo apego excessivo pode se deslocar, encontrar outro corpo, outra forma de
vida. Nada está definitivamente perdido.
Embora não esteja entre os
romances mais famosos de George Eliot, Silas Marner
concentra muitos de seus temas centrais: a amargura produzida pela exclusão
social, a crítica às instituições morais, a desconfiança em relação a soluções
coletivas abstratas e a ênfase na transformação ética individual. Eliot nunca
foi uma autora interessada em movimentos sociais ou revoluções externas; sua
aposta estava na mudança lenta, silenciosa, íntima.
Há também algo de autobiográfico
nesse romance. A marginalidade de Silas, sua obsessão pelo trabalho, seu
afastamento da vida social e sua relação ambivalente com o dinheiro ecoam
aspectos da própria experiência de Eliot — uma mulher intelectual que viveu à
margem das convenções e desconfiava profundamente dos julgamentos morais da
sociedade.
Silas Marner
é, assim, um livro discreto e profundo. Um romance que não promete salvação
fácil, mas que insiste em algo cada vez mais raro: a possibilidade de redenção
sem espetáculo, de bondade sem heroísmo, de mudança sem ilusões.


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