sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

SOLIDÃO, DINHEIRO E FÉ: UM RETRATO MORAL DA SOCIEDADE QUE AINDA NOS ATRAVESSA

 


SILAS MARNER: O TECELÃO DE RAVELOE

GEORGE ELIOT

JOSÉ OLYMPIO – 1ª ED. 2017

Há livros que encontram o leitor no momento certo. Silas Marner é um desses. Em tempos difíceis, George Eliot oferece um romance que, sem ingenuidade, insiste em pensar a possibilidade da mudança individual, da reparação e da bondade — mesmo em um mundo atravessado pelo egoísmo, pelo dinheiro, pela mentira e pela culpa.

A narrativa acompanha a vida do tecelão Silas Marner, um homem marcado por sucessivas perdas, injustiças e exclusões. Vítima de uma acusação falsa e de uma comunidade religiosa rígida e hipócrita, Silas se afasta do convívio social e passa a viver de forma isolada, quase automática, concentrando sua existência na repetição do trabalho e na acumulação de dinheiro. Não por ambição, mas por medo: o ouro torna-se seu único vínculo com o mundo, uma falsa promessa de segurança.

George Eliot constrói, ao longo do romance, uma crítica severa aos valores sociais e morais de sua época, crítica que permanece atual. A religião aparece como espaço de controle e exclusão; a vida comunitária, como lugar de julgamentos precipitados; o dinheiro, como substituto empobrecido dos vínculos humanos. Ainda assim, Eliot não cai no cinismo. Há, em Silas Marner, uma aposta deliberada na possibilidade de transformação.

Uma frase do livro sintetiza esse movimento: “Quando um homem fecha a porta para uma bênção, ela pertence a quem a acolhe.” A ideia de bênção, aqui, não é religiosa, mas ética. O que se perde pela recusa, pelo endurecimento ou pelo apego excessivo pode se deslocar, encontrar outro corpo, outra forma de vida. Nada está definitivamente perdido.

Embora não esteja entre os romances mais famosos de George Eliot, Silas Marner concentra muitos de seus temas centrais: a amargura produzida pela exclusão social, a crítica às instituições morais, a desconfiança em relação a soluções coletivas abstratas e a ênfase na transformação ética individual. Eliot nunca foi uma autora interessada em movimentos sociais ou revoluções externas; sua aposta estava na mudança lenta, silenciosa, íntima.

Há também algo de autobiográfico nesse romance. A marginalidade de Silas, sua obsessão pelo trabalho, seu afastamento da vida social e sua relação ambivalente com o dinheiro ecoam aspectos da própria experiência de Eliot — uma mulher intelectual que viveu à margem das convenções e desconfiava profundamente dos julgamentos morais da sociedade.

Silas Marner é, assim, um livro discreto e profundo. Um romance que não promete salvação fácil, mas que insiste em algo cada vez mais raro: a possibilidade de redenção sem espetáculo, de bondade sem heroísmo, de mudança sem ilusões.



George Eliot pseudônimo de Mary Ann Evans, nasceu em Nuneaton, Warwickshire, Inglaterra em 1819  e faleceu em Chelsea, Middlesex, Inglaterra em 1880. Foi uma autodidata e romancista. 

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