INABALÁVEL
WANGARI MAATHAI
NOVA FRONTEIRA – 1ª ED. 2007.
Inabalável
é a autobiografia de Wangari Maathai e o relato de uma luta que articula
ecologia, política e justiça social no Quênia. Ao narrar sua própria
trajetória, Maathai expõe os efeitos profundos da imposição colonial: a
substituição de culturas tradicionais por monoculturas lucrativas, o
desmatamento em larga escala e suas consequências diretas sobre o solo, o meio
ambiente, os animais e, sobretudo, sobre a vida humana, marcada pela fome e
pelo desemprego.
O livro começa na infância,
acompanhando o cotidiano familiar, as dificuldades econômicas e os
deslocamentos impostos pela busca de trabalho. Wangari retorna com a mãe e a
irmã à região de origem para poder estudar, já que onde o pai trabalhava não
havia escolas. Sua formação tem início em um colégio católico, experiência que
a colocará em contato direto com a educação colonial e suas contradições.
Seu percurso acadêmico é
notável. Impedida de ingressar na Universidade da África Oriental, ela recebe
uma bolsa da Fundação Kennedy e parte para os Estados Unidos, onde obtém o
bacharelado em biologia. Em seguida, conclui o mestrado na mesma área, passa
pela Alemanha, trabalhando com medicina veterinária, e retorna ao Quênia. Em
1971, torna-se a primeira mulher a obter um doutorado pela Universidade de
Nairóbi, onde passa a lecionar anatomia veterinária.
A entrada na política marca uma
ruptura decisiva em sua vida. Ao candidatar-se ao Parlamento, Wangari perde o
cargo na universidade, enfrenta perseguições institucionais e vê seu casamento
se desfazer. É um período de grande vulnerabilidade pessoal e material. Ainda
assim, o livro deixa claro que a ideia de recuo nunca se impõe como opção real.
A inabalabilidade do título não é retórica: é prática cotidiana de resistência.
Ao perceber a relação direta
entre desmatamento, empobrecimento do solo, fome e exclusão social —
especialmente das mulheres — Wangari funda, em 1977, o Movimento Cinturão
Verde, voltado ao plantio de árvores nativas. A iniciativa, simples em
aparência, confronta diretamente os interesses do Estado e das elites
econômicas. Por isso, ela enfrenta perseguição política, violência e prisão.
Ainda assim, persiste.
Inabalável
é também um livro sobre mulheres: sobre como são elas as primeiras a sentir os
efeitos da degradação ambiental e as últimas a serem ouvidas nas decisões
políticas. A luta ecológica, aqui, não é separável da luta feminista, nem da
crítica ao colonialismo e às suas permanências.
Em 2004, Wangari Maathai recebe
o Prêmio Nobel da Paz. Mais do que um reconhecimento individual, o prêmio
simboliza a legitimidade de uma luta que fez diferença concreta na vida de
milhares de pessoas no Quênia. Wangari faleceu em 2011, em Nairóbi, vítima de
câncer, deixando como legado a prova de que ecologia, política e cuidado com a
vida não podem ser pensados separadamente.


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