NORTE E SUL
ELIZABETH GASKELL
MARTIN CLARET – 1ª ED. 2016
Em Norte e Sul,
Elizabeth Gaskell constrói um romance profundamente atento às transformações
sociais provocadas pela Revolução Industrial na Inglaterra. A narrativa se
organiza a partir do deslocamento de Margaret Hale, filha de um pastor, criada
no interior, em contato com a natureza e com uma vida que parecia harmoniosa. A
mudança para Milton, cidade industrial do Norte, impõe um choque radical entre
dois mundos.
Milton é descrita como um espaço
sufocante: o ar poluído pelo carvão, a fuligem que se deposita sobre tudo, o
barulho constante das fábricas. A cidade não adoece apenas o ambiente, mas
também os corpos. A mãe de Margaret, já fragilizada, sente de forma intensa os
efeitos dessa atmosfera hostil. Ao redor, a miséria, a fome e as greves revelam
o custo humano do progresso industrial.
Ao se aproximar de uma família
de operários, Margaret passa a enxergar de perto as condições de vida da classe
trabalhadora. A exploração, a instabilidade e o medo do desemprego se impõem
como realidade cotidiana. O romance expõe, assim, as tensões entre patrões e
trabalhadores, especialmente durante a greve geral que atravessa a narrativa.
É nesse cenário que surge John
Thornton, proprietário da indústria, representante do capital e do poder
econômico, mas também figura complexa, distante da caricatura do vilão. O
envolvimento afetivo entre Margaret e Thornton não apaga o conflito de classes;
ao contrário, torna-o ainda mais evidente. O amor não funciona como conciliação
fácil, mas como campo de tensão ética e política.
Outros deslocamentos reforçam
essa instabilidade. Frederick, o irmão de Margaret, vive no exílio após se
envolver em um motim a bordo de um navio da Marinha, trazendo à tona o
autoritarismo do Estado e o custo da dissidência. Quando Margaret retorna ao interior,
percebe que a vida dos camponeses tampouco corresponde à idealização inicial:
ali também há precariedade, dependência e silenciamento.
A herança que mais tarde recebe
introduz uma reviravolta na trama, mas não dissolve as questões centrais do
romance. O dinheiro não resolve magicamente os conflitos sociais; ele apenas
desloca as posições de poder e evidencia suas contradições.
Em um contexto histórico em que
as mulheres tinham pouquíssimo espaço para se expressar publicamente — quanto
mais para denunciar injustiças — Elizabeth Gaskell faz da literatura um
instrumento crítico. Seu romance dialoga com a tradição de Dickens na Inglaterra
e de Zola na França, mas preserva uma singularidade: a atenção à mediação
feminina, à escuta, ao cotidiano e às ambiguidades morais que atravessam tanto
o Norte industrial quanto o Sul rural.
Norte e Sul
é, assim, um romance que recusa simplificações. Não há mundo puro nem progresso
sem custo. O que Gaskell oferece é uma leitura sensível e política de uma
sociedade em transformação — e das vidas que são esmagadas ou rearranjadas por
ela.

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