sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O OLHAR DE UMA MULHER SOBRE A INGLATERRA INDUSTRIAL


 

NORTE E SUL

ELIZABETH GASKELL

MARTIN CLARET – 1ª ED. 2016

Em Norte e Sul, Elizabeth Gaskell constrói um romance profundamente atento às transformações sociais provocadas pela Revolução Industrial na Inglaterra. A narrativa se organiza a partir do deslocamento de Margaret Hale, filha de um pastor, criada no interior, em contato com a natureza e com uma vida que parecia harmoniosa. A mudança para Milton, cidade industrial do Norte, impõe um choque radical entre dois mundos.

Milton é descrita como um espaço sufocante: o ar poluído pelo carvão, a fuligem que se deposita sobre tudo, o barulho constante das fábricas. A cidade não adoece apenas o ambiente, mas também os corpos. A mãe de Margaret, já fragilizada, sente de forma intensa os efeitos dessa atmosfera hostil. Ao redor, a miséria, a fome e as greves revelam o custo humano do progresso industrial.

Ao se aproximar de uma família de operários, Margaret passa a enxergar de perto as condições de vida da classe trabalhadora. A exploração, a instabilidade e o medo do desemprego se impõem como realidade cotidiana. O romance expõe, assim, as tensões entre patrões e trabalhadores, especialmente durante a greve geral que atravessa a narrativa.

É nesse cenário que surge John Thornton, proprietário da indústria, representante do capital e do poder econômico, mas também figura complexa, distante da caricatura do vilão. O envolvimento afetivo entre Margaret e Thornton não apaga o conflito de classes; ao contrário, torna-o ainda mais evidente. O amor não funciona como conciliação fácil, mas como campo de tensão ética e política.

Outros deslocamentos reforçam essa instabilidade. Frederick, o irmão de Margaret, vive no exílio após se envolver em um motim a bordo de um navio da Marinha, trazendo à tona o autoritarismo do Estado e o custo da dissidência. Quando Margaret retorna ao interior, percebe que a vida dos camponeses tampouco corresponde à idealização inicial: ali também há precariedade, dependência e silenciamento.

A herança que mais tarde recebe introduz uma reviravolta na trama, mas não dissolve as questões centrais do romance. O dinheiro não resolve magicamente os conflitos sociais; ele apenas desloca as posições de poder e evidencia suas contradições.

Em um contexto histórico em que as mulheres tinham pouquíssimo espaço para se expressar publicamente — quanto mais para denunciar injustiças — Elizabeth Gaskell faz da literatura um instrumento crítico. Seu romance dialoga com a tradição de Dickens na Inglaterra e de Zola na França, mas preserva uma singularidade: a atenção à mediação feminina, à escuta, ao cotidiano e às ambiguidades morais que atravessam tanto o Norte industrial quanto o Sul rural.

Norte e Sul é, assim, um romance que recusa simplificações. Não há mundo puro nem progresso sem custo. O que Gaskell oferece é uma leitura sensível e política de uma sociedade em transformação — e das vidas que são esmagadas ou rearranjadas por ela.



Elizabeth Gaskell nasceu em Chelsea, Londres em 1910 e faleceu em Holybourne, Reino Unido em 1865. Romancista e Contista britânica durante a era vitoriana. 

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