segunda-feira, 21 de setembro de 2026

LIVRO: NADA

 

NADA

CARMEN LAFORET

ALFAGUARA – 1ª ED. – 2008

Tradução: Rubia Prates Goldoni

264 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ESPANHA 


Bastou começar a ler e fui fisgada pela escrita de Carmen Laforet. Uma jovem chega a Barcelona, vinda do interior da Espanha, para estudar. Vem com todos seus sonhos, imaginação, esperanças de encontrar em uma cidade grande, liberdade e possibilidades novas e se depara com um quadro que destrói, em segundos, muitas dessas imagens.

Laforet não precisa explicar nada, basta a descrição da casa da família e a recepção dos parentes que a acolhem. Um apartamento claustrofóbico, uma luz verde mortificante, que transforma o ambiente em algo fúnebre, lustres com apenas uma lâmpada, teias de aranha, e a sujeira no banheiro que não tem água quente.

A recepção dos parentes, as expressões faciais, as posturas engolfam a jovem e lhe tiram toda a alegria e as esperanças. Uma família de classe média baixa, que não dispõe dos confortos de uma burguesia, mas também não chega a ser miserável e, no entanto, se acha superior aos pobres e os desprezam.

É pós-guerra civil espanhola e Segunda Guerra Mundial, há muitos traumas e consequências que vieram dos conflitos. Ramón foi preso e torturado; Juan, o outro irmão, casou-se com uma jovem que não condiz com o que a família chama de moça direita. Angustias, nome, aliás, bem revelador, sofre de uma paixão reprimida e se transformou em uma pessoa amarga, autoritária e controladora.

Há muita mesquinhez, uns cuidando da vida dos outros, se intrometendo, provocando. Há um momento em que é Natal e Andrea olha pela janela. Tudo iluminado, lojas decoradas, famílias passeando, a sensação de uma época de felicidade e união familiar, festas, comidas, presentes, mas dentro do apartamento tudo é lúgubre, frio, estranho.

Angustias finalmente decide deixar a casa e ir para um convento. Para Andrea, é um alívio, uma vez que acredita que terá mais liberdade.

Após a partida de Angustias, é a segunda parte do livro. Andrea agora precisa ajudar financeiramente em casa, mas opta por apenas pagar pelo pão do café da manhã. O quarto, a avó a dispensa de pagar.

Andrea conhece Ena na Universidade e se tornam boas amigas, porém Ena é uma jovem de uma família mais próspera do que a de Andrea. Com o dinheiro que agora recebe em mãos, ao invés de guardar para se alimentar, ela gasta quase tudo nos três primeiros dias, comprando flores e presentes para a família de Ena. No fundo, sem ao menos perceber, repete a própria família, que sempre quer parecer mais do que é. Com isso ela começa a passar fome.

Um dia Ena vai atrás dela no apartamento. Ela não está, e Ena conhece o Tio Ramón. Quando Andrea chega, fica notório o desagrado que ela sente ao ver Ena ali e o ciúme perceptível que sente dela com Ramón. Com isso, Ena decide se afastar e lhe pede para não ir mais à casa dela nas tardes da semana e também acaba não emprestando mais livros para que ela possa fazer suas traduções, o que obriga Andrea a frequentar a biblioteca.

A partir desse momento, irão se desenrolar situações que levarão Andrea a uma solidão e a um estado depressivo diante de tudo que lhe acontece de real e de suas ilusões ao vir para Barcelona. Segredos virão à tona e, com isso, quem é Ramón e toda sua crueldade se mostrarão.

Há uma descrição de uma paixão obsessiva de uma adolescente que é muito bem escrita, nos levando a sentir a angústia e o desespero de uma mulher.

A vida medíocre e toda a violência que está presente na família, a relação abusiva de Juan e Glória. Uma avó que sempre defendeu seus filhos homens em detrimento das mulheres e que não é capaz de enxergar o quanto eles são violentos e também covardes. A pobreza e a fome, e a falta de uma união familiar, convivência e um mínimo de relação familiar estão presentes no livro todo. Do outro lado, as famílias ricas de Barcelona e toda sua hipocrisia e vida absolutamente distante do bairro onde vive a família de Andrea.

Um livro que causa impacto, muito bem escrito, que nos faz sentir na pele as situações e o desespero de uma adolescente que tinha sonhos e se viu diante de uma realidade cruel e fria, e que ao partir dali ela simplesmente percebe que não leva Nada dali. 

Carmen Laforet nasceu em Barcelona, Espanha, em 1921 e faleceu em Madrid, Espanha, em 2004. Foi uma escritora espanhola. 



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