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sábado, 11 de abril de 2026

LIVRO: MEUS DEMÔNIOS - EDGAR MORIN

 


MEUS DEMÔNIOS

EDGAR MORIN

BERTRAND BRASIL  – 5ª ED. – 1995

276 páginas


Em Meus demônios, Edgar Morin realiza um exercício raro de autobiografia intelectual que não busca a celebração de si, mas a exposição das contradições que atravessam uma vida dedicada ao pensamento. O livro não é uma confissão no sentido clássico, tampouco um memorial pacificado; trata-se de um confronto direto com as forças internas — afetivas, políticas, ideológicas e existenciais — que moldaram sua trajetória.

Morin escreve a partir da recusa da linearidade. Sua vida aparece marcada por rupturas, ambiguidades e revisões constantes: o engajamento político, a experiência da Resistência, a militância comunista e o posterior afastamento do dogmatismo ideológico compõem um percurso que jamais se resolve em certezas definitivas. Os “demônios” a que o título se refere não são apenas conflitos íntimos, mas também as tentações do pensamento simplificador, da ortodoxia e da fidelidade cega a sistemas fechados.

Ao revisitar sua história, Morin explicita a inseparabilidade entre vida e pensamento. A teoria não nasce em abstração, mas no atrito com a experiência, com o erro, com o sofrimento e com o fracasso. Nesse sentido, Meus demônios antecipa e ilumina aquilo que se tornaria central em sua obra posterior: a defesa do pensamento complexo como resistência à mutilação do real, à redução da vida a esquemas binários e à separação artificial entre razão e emoção.

O livro também é atravessado por uma reflexão profunda sobre o século XX. Guerras, totalitarismos, desencantos políticos e crises civilizatórias não aparecem como pano de fundo, mas como forças que atravessam subjetivamente o autor. Morin reconhece sua própria vulnerabilidade diante das grandes narrativas de salvação histórica, mostrando como mesmo o pensamento crítico pode ser capturado por ilusões redentoras.

Há, em Meus demônios, uma ética da lucidez que se constrói a partir da aceitação da incompletude. Morin não se apresenta como alguém que venceu seus conflitos, mas como quem aprendeu a conviver com eles sem negá-los. Pensar, aqui, é um exercício permanente de vigilância contra o fechamento, contra a tentação da pureza ideológica e contra o conforto das respostas fáceis.

O livro permanece atual justamente por essa recusa da pacificação. Em tempos de polarização, certezas identitárias rígidas e discursos totalizantes, Meus demônios lembra que a complexidade não é fraqueza, mas condição ética do pensamento. Ler Morin é aceitar que a lucidez nasce do enfrentamento dos próprios abismos — e que pensar é, sempre, arriscar-se.

Edgar Morin nasceu em Paris, em 1921. É um antropólogo, sociólogo e filósofo francês. 




segunda-feira, 28 de abril de 2014

LIVRO: PAULA - ISABEL ALLENDE


PAULA

ISABEL ALLENDE

BERTRAND BRASIL 2ª ED. – 1995

Tradução: Irene Moutinho

472 páginas

Em 1991 Paula, a filha de Isabel Allende adoeceu gravemente e logo entrou em coma. Estavam na Espanha. Isabel vai para lá e sua mãe também, e começam a longa vigília na esperança que Paula acordasse.

Para vencer a angústia do tempo que não passa Isabel começa a escrever para sua filha este livro, onde conta a história da família, pensando que quando ela acordar poderá lhe oferecer estes escritos.

A maior dor de um ser humano é perder um filho. É tão brutal que não nem nomeação para este estado, dizemos que quem perdeu o cônjuge é viúvo, quem perdeu os pais é órfão, mas e quem perdeu um filho, o que é? Já não pode nem dizer sou mãe, teria que dizer fui mãe de ... pois este filho nunca será substituído, mesmo havendo outros.

O livro é o relato da dor desta mãe, das suas esperanças e angústias, medos, mas é também o relato de sua família e da história do Chile. A dedicação do marido de Paula, todo seu amor a sua jovem esposa que nos toca profundamente.

Foram meses, longos meses, enquanto este livro era escrito com a dor, mas também a força desta mãe, que precisava continuar a viver, é uma evocação à vida e uma linda homenagem à sua filha.

Isabel Allende com seus filhos Nicolas e Paula 

Isabel Allende Llona nasceu em 1942 na cidade de Lima - Peru, apesar de ter nascido em Lima é considerada Chilena, e atualmente vive nos Estados Unidos.





sábado, 4 de janeiro de 2014

LIVRO: W OU A MEMÓRIA DA INFÂNCIA - GEORGES PEREC



W OU A MEMÓRIA DA INFÂNCIA

GEORGES PEREC

COMPANHIA DAS LETRAS – 1995

Tradução: Paulo Neves

196 páginas

PAÍS – FRANÇA


Título original: W, ou , le souvenir d'enfance 

Um livro de memórias, mas memórias que não existem, que precisam ser resgatadas, recuperadas, e que se apresentam sempre misturadas a outros eventos, imaginárias, sem muita confirmação. Perec era criança quando a Segunda Guerra começou, ficou órfão. 
Ele começa nos dizendo que não tem nenhuma memória de infância, e se lança na escrita na tentativa de recuperá-las. Nem sempre é possível ou fácil colocar em palavras o que se viveu, e paralelamente ele escreve uma história, a história de W, uma narrativa fantasiada pelo autor aos doze anos. Mas qual será a mais verdadeira? 
Nossa memória sempre reconstitui um romance, pega pedaços do que vivemos e condensa, formando uma história coesa, mas quando não se tem esta possibilidade de coesão e se está no caos, pode-se também inventar, imaginar, criar uma história. 
Ele irá alternar pedaços de sua vida, do que consegue se lembrar ou pensa ter sido assim, com a história de W. 
W, a terra do esporte, um Estado-máquina. Ao ler estes trechos me vieram duas versões. A primeira seria a maneira de poder falar, contar e ser ouvido sobre o Holocausto, sobre os campos de concentração, pois temos um retrato deles de forma fantasiada, e a outra seria como as pessoas passam a acreditar numa ideologia, mesmo que maléfica, como  seguem as regras e não se rebelam contra. 
Talvez por que no real da guerra haviam inimigos, mas entre eles também havia seres humanos. Ao vencedor cabe os privilégios, e ao perdedor os castigos, a derrota, a humilhação, mas o vencedor de hoje é o perdedor de amanhã. E no dia a dia sempre há os que protegem os mais fracos e mais novos, mesmo entre os que são os vencedores, talvez principalmente entre eles, para que possamos sobreviver. 

Perec escreve, escreve para poder viver. Para lembrar e esquecer, ou esquecer para lembrar. E sua fábula da Terra de W nos serve para compreendermos todos os totalitarismos e por ironia ou uma coincidência que ninguém pode compreender, esta terra está na América Latina, onde tantas ditaduras viraram a Terra de W. 

George Perec nasceu em 1936 em Bordeaux, França e morreu em Paris em 1982.