LEIA PERIGOSAMENTE: O PODER SUBVERSIVO DA LITERATURA EM
TEMPOS CONTURBADOS
AZAR NAFISI
RECORD – 1ª ED. – 2026
Tradução: Marina Vargas
238 páginas
PAÍS – IRÃ
Acabei lendo esse livro
paralelamente a outro livro escrito por uma iraniana. Impossível algo tão
díspar: de um lado, Nahal Tajadod recupera a história do encontro entre o poeta
Rumi e o enigmático dervixe Shams de Tabriz; aqui, Azar Nafisi é uma iraniana
vivendo nos Estados Unidos após deixar o país devido à censura intelectual do
regime. No entanto, é o mesmo país, é o Irã atual, antiga Pérsia.
O que os dois livros trazem é que,
para o Ocidente, que tem uma visão limitada em relação à riqueza filosófica,
literária, poética do Irã, podemos ver que o que narra Nafisi é muito diferente
do que nos relata Tajadod, apesar de ambas serem escritoras contemporâneas, a
primeira nascida em 1955 e a segunda em 1960, ambas em Teerã, sendo que Tajadod
optou por morar na França.
Nafisi escreve durante a pandemia
da Covid e o primeiro governo Trump cartas ao seu pai, já morto há doze anos,
refletindo sobre a situação que vivia como mulher, professora e cidadã iraniana,
assim como estadunidense, o que lhe vá uma visão de fora de seu próprio país,
que, no entanto, não esquece e ama.
É através da literatura que
Nafisi reflete sobre a questão do autoritarismo e dos governos ditatoriais e o
quanto a literatura é uma forma de resistência. O livro me atraiu justamente
por isso. Durante períodos que foram difíceis para mim, inclusive políticos,
recorri a literatura.
Há uma discussão sobre o livro “A
República” de Platão, que alega que há uma mentira nobre que pode ser falada ao
povo por aqueles que melhor sabem governar, ou seja, os reis filósofos, com um
colega que concorda com Platão e ela discorda. Essa é uma questão espinhosa que
já me acompanha há anos, e já encontrei vários exemplos na literatura de um
debate assim. E atualmente pensar novamente sobre isso, sobre considerar que há
pessoas que não possuem capacidade de julgar ou fazer escolhas corretas,
segundo alguns pensam, e se é correto dizer que há os que sabem mais, que sabem
o que o povo precisa, continua não me convencendo, mas não deixa de me
preocupar.
Vemos um declínio cognitivo,
vemos tantas pessoas que acreditam em tudo que lhes dizem, principalmente nas
redes sociais, e que, quando as informações vão ao encontro de seus
preconceitos ou pensamentos, apoiam de imediato, sem parar para analisar.
Quando já não há adversários, e sim inimigos que precisam ser destruídos.
Quando vemos pesquisas sobre a incapacidade de leitura que está surgindo entre
jovens, que já não conseguem interpretar, compreender metáforas ou ironias.
E justamente Nafisi inicia sua
primeira carta tratando da fatwa imposta ao escritor Salman Rushdie por
ter tido seu livro “Versos Satânicos” considerado blasfemo contra o Islã, o que,
de fato, não era, devido a uma falta de compreensão do que estava escrito ali e
que resultou, inclusive, em assassinatos.
Em outra carta, ela irá abordar o
escritor David Grossman e seu livro “A mulher foge”, um escritor israelense que
sofreu um trauma com a perda do filho na guerra e trabalha no livro a questão
da desumanização do outro e a questão de olhar para o inimigo como um ser humano.
Ela escreve uma carta ao pai onde
trata de “O Conto da Aia” de Margaret Atwood. Nessa carta, eu, em alguns pontos,
concordo discordando dela. Nafisi escreve nos anos 2019 e 2020. A situação no
Irã é complicada para as mulheres, no entanto, penso que ela sente uma revolta
muito palpável contra o regime e com razão, mas há pontos que, lendo outras
mulheres iranianas, percebemos não serem tão exacerbados. Longe de mim defender
o regime em relação às mulheres, mas, para Nafisi, o uso do véu é uma imposição
que cerceia a liberdade da mulher, é para silenciá-la. Concordo que tudo que é
obrigatório deixa de ser uma liberdade, mesmo havendo ainda uma escolha que, no
entanto, tem um preço a ser pago. Mas isso não elimina mulheres que escolhem
usar o véu por outros motivos, como os religiosos e até mesmo políticos.
Nafisi compara Gilead ao regime
Islâmico iraniano. Ela vê no livro o que viveu no Irã. Porém, Atwood não
escreveu esse livro pensando no Irã; ao contrário, ela situa Gilead nos Estados
Unidos e se utiliza de personagens e situações da história ocidental. É um
alerta às mulheres ocidentais do que pode acontecer com um fundamentalismo
religioso chegando ao poder. Atwood usa como referências Raquel e Lia da Bíblia
cristã, ou seja, uma religião que está presente massivamente no Ocidente.
Em outra carta ao pai, ela fala
de Toni Morrison e da obra “O Olho mais azul” e de Zora Neale Hurston e seu
livro “Seus olhos viam Deus”, que foi tremendamente criticada na época pelo
movimento negro e principalmente por Richard Wright autor de “O Filho Nativo”.
Para Wright, a escrita negra devia ser um veículo para a ideologia política, já
Hurston focava no indivíduo. Enquanto o livro de Morrison traz uma jovem negra
que deseja virar branca, Hurston trabalha com uma mulher negra, seus desejos,
sua vida, que não se vê pelo olhar do branco. Isso é revolucionário.
Para Wright, importa o protesto,
é um romance onde o negro está submetido ao racismo e à supremacia branca. Já
Hurston não segue essa linha, ela preza a dignidade do negro.
A última carta é sobre James
Baldwin e o tema é o ódio. A questão é como a vítima passa a se odiar a si
mesma e se vê pelo olhar do opressor.
Há uma questão que penso da mesma
forma: quando digo que o que motiva os movimentos reacionários e autoritários
atuais é o fato de que as chamadas minorias alcançaram direitos que não tinham
antes, sejam as mulheres, as pessoas negras, indígenas ou os LGBTQI+, e isso
incomoda e assusta tremendamente aos que antes se acreditavam superiores e
donos do poder. Baldwin declara, em uma entrevista: “Quando eu era criança,
disse ele, o mundo era branco [...] e agora está lutando para permanecer
branco”. Isso é muito diferente.
Sobre o ódio, Baldwin diz
“Imagino que uma das razões pelas quais as pessoas se agarram ao ódio com tanta
tenacidade é porque sentem que, quando o ódio passar, serão forçadas a encarar
a dor”. Aqui se referindo ao trauma do racismo.
“Como Baldwin descobriu, existe
um fio invisível que liga a evasão da dor e o ódio. E em nenhum lugar isso fica
mais evidente do que na chamada política identitária, que apazigua o desejo por
soluções confortáveis em ambos os extremos do espectro político, demonizando os
outros, segregando-os e aprisionando-os em categorias. Você está familiarizado
com a política identitária, que tanto na direita quanto na esquerda, de uma
forma ou de outra, sempre nos acompanhou ao longo da história. Mas hoje, depois
de Trump, ela ganhou predominância. Não precisamos mais nos relacionar
genuinamente com aqueles que estão do outro lado, nem lidar com as ambiguidades
e os paradoxos, deles ou nossos. Coates descreve isso com precisão: “O ódio dá
uma identidade. O negro, o veado e a puta iluminam a fronteira, iluminam aquilo
que ostensivamente não somos, iluminam o Sonho de ser branco, de ser um Homem.
Nomeamos os estranhos que odiamos e é assim que encontramos a confirmação de
que pertencemos a uma tribo.”
Essa parte sobre o ódio e a
política identitária é extremamente atual, e, se aqui Baldwin se refere a
questão negra, sua fala também nos serve para refletir sobre outras questões.
“Leia Perigosamente” é um livro
que nos mostra como a literatura ainda tem um papel fundamental em momentos
difíceis, seja na vida pessoal ou em questões públicas e políticas.
Azar Nafisi nasceu em Teerã, Irã,
em 1955. É uma escritora e acadêmica que vive nos EUA desde 1997.


Nenhum comentário:
Postar um comentário