sábado, 7 de fevereiro de 2026

UMA VIDA VIVIDA FORA DE LUGAR

 


FORA DO LUGAR: MEMÓRIAS 

EDWARD SAID

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2004.


Edward Said é amplamente conhecido por Orientalismo, obra fundamental para a crítica ao eurocentrismo e às formas pelas quais o Ocidente construiu discursivamente o chamado “Oriente”. Em Fora do Lugar, no entanto, ele desloca o foco: trata-se de uma autobiografia da infância e da juventude, vividas sobretudo entre o Cairo e o Líbano, marcada por desenraizamento, disciplina, medo e inadequação constante.

A leitura causa, em muitos momentos, um certo espanto. Said descreve uma infância atravessada por uma relação difícil com os pais: uma mãe manipuladora, emocionalmente instável, e um pai autoritário, profundamente patriarcal, cuja rigidez produziu nele medo e traumas duradouros. Esses episódios não aparecem como simples memórias pessoais, mas como marcas psíquicas que o acompanharam por toda a vida. Said retorna a elas diversas vezes, como se tentasse compreender de que modo o sentimento de não pertencimento se enraizou tão cedo.

Muito antes da consolidação do pensamento decolonial como campo teórico, Said já afirmava algo decisivo: o Oriente não existe como essência, mas como construção do olhar ocidental. Em Fora do Lugar, ainda não encontramos a formulação sistemática dessa crítica, mas é possível acompanhar o seu nascimento. A experiência de viver entre línguas, culturas e sistemas educacionais distintos — sempre como alguém deslocado, nunca plenamente integrado — constitui a matriz sensível de suas ideias futuras.

A autobiografia também se cruza com a história política do século XX. Said relata a trajetória de sua família palestina e o impacto da expulsão dos palestinos de suas terras com a criação do Estado de Israel, processo imposto sem levar em conta a população local. A perda, o exílio e a violência simbólica e material desse evento atravessam o livro e ressoam de maneira dolorosamente atual. Não se trata apenas de memória individual, mas de uma história coletiva marcada pela injustiça e pelo apagamento.

Escrito quando Said já enfrentava um câncer e se encontrava próximo do fim da vida, Fora do Lugar carrega um tom de balanço existencial. Não é um livro de vitórias, mas de exposição de fragilidades. Ao acompanhar a formação emocional e intelectual de Said, o leitor compreende melhor o alcance e a urgência de suas obras. Ler esta autobiografia é perceber que sua crítica ao imperialismo cultural não nasce apenas da teoria, mas de uma vida inteira vivida na fronteira, sob a experiência constante de não pertencimento.

É uma leitura que não idealiza o autor, mas o humaniza — e, justamente por isso, ilumina com mais profundidade sua obra crítica.


Edward Said nasceu em Jerusalém em 1935 e faleceu em Nova Iorque, EUA, em 2003. Foi um acadêmico, crítico literário e ativista político palestino. Esteve entre os fundadores dos estudos pós-coloniais. 


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