FORA DO LUGAR: MEMÓRIAS
EDWARD SAID
COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2004.
Edward Said é amplamente
conhecido por Orientalismo, obra
fundamental para a crítica ao eurocentrismo e às formas pelas quais o Ocidente
construiu discursivamente o chamado “Oriente”. Em Fora do Lugar, no entanto, ele desloca o foco: trata-se de
uma autobiografia da infância e da juventude, vividas sobretudo entre o Cairo e
o Líbano, marcada por desenraizamento, disciplina, medo e inadequação
constante.
A
leitura causa, em muitos momentos, um certo espanto. Said descreve uma infância
atravessada por uma relação difícil com os pais: uma mãe manipuladora,
emocionalmente instável, e um pai autoritário, profundamente patriarcal, cuja
rigidez produziu nele medo e traumas duradouros. Esses episódios não aparecem
como simples memórias pessoais, mas como marcas psíquicas que o acompanharam
por toda a vida. Said retorna a elas diversas vezes, como se tentasse
compreender de que modo o sentimento de não pertencimento se enraizou tão cedo.
Muito
antes da consolidação do pensamento decolonial como campo teórico, Said já
afirmava algo decisivo: o Oriente não existe como essência, mas como construção
do olhar ocidental. Em Fora do Lugar,
ainda não encontramos a formulação sistemática dessa crítica, mas é possível
acompanhar o seu nascimento. A experiência de viver entre línguas, culturas e
sistemas educacionais distintos — sempre como alguém deslocado, nunca
plenamente integrado — constitui a matriz sensível de suas ideias futuras.
A
autobiografia também se cruza com a história política do século XX. Said relata
a trajetória de sua família palestina e o impacto da expulsão dos palestinos de
suas terras com a criação do Estado de Israel, processo imposto sem levar em
conta a população local. A perda, o exílio e a violência simbólica e material
desse evento atravessam o livro e ressoam de maneira dolorosamente atual. Não
se trata apenas de memória individual, mas de uma história coletiva marcada
pela injustiça e pelo apagamento.
Escrito
quando Said já enfrentava um câncer e se encontrava próximo do fim da vida, Fora do Lugar carrega um tom de balanço
existencial. Não é um livro de vitórias, mas de exposição de fragilidades. Ao
acompanhar a formação emocional e intelectual de Said, o leitor compreende
melhor o alcance e a urgência de suas obras. Ler esta autobiografia é perceber
que sua crítica ao imperialismo cultural não nasce apenas da teoria, mas de uma
vida inteira vivida na fronteira, sob a experiência constante de não
pertencimento.
É uma leitura que não idealiza o
autor, mas o humaniza — e, justamente por isso, ilumina com mais profundidade
sua obra crítica.
Edward Said nasceu em Jerusalém em 1935 e faleceu em Nova Iorque, EUA, em 2003. Foi um acadêmico, crítico literário e ativista político palestino. Esteve entre os fundadores dos estudos pós-coloniais.


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