A DÁDIVA MAIOR
A vida e a morte corajosa da Irmã Dorothy Stang
BINKA LE BRETON
GLOBO – 2008
248 páginas
A Amazônia — esta floresta
tropical de dimensão continental que abrange Amazonas, Pará, Acre, Rondônia,
Roraima, Maranhão, Tocantins, Mato Grosso e Amapá, estendendo-se ainda pelo
Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela e Guianas — aparece neste livro não como
paisagem exótica, mas como território em disputa.
Um espaço violentado por grileiros, madeireiros e garimpeiros ilegais,
protegido por pistoleiros, enquanto, do outro lado, resistem posseiros,
assentados, ribeirinhos e povos indígenas. Muitos acabam mortos, expulsos ou
escravizados pela exploração do trabalho. É essa realidade brutal que atravessa
a narrativa sobre a vida e o assassinato de Dorothy
Stang.
Binka Le Breton reconstrói a
trajetória dessa mulher extraordinária com precisão e sensibilidade. Dorothy
surge como alguém profundamente indignada diante da crueldade e da devastação,
mas também como uma figura prática, obstinada, que acreditava que educação é uma forma de libertação. Ensinar
a ler, escrever, compreender direitos, isso, mais do que discursos, ameaçava os
poderosos. Não por acaso, escolas de taipa e telhado de palha erguidas pelas
comunidades eram incendiadas, repetidas vezes, como aviso.
O livro também evidencia as
sucessivas ondas de migração estimuladas pelo governo militar em nome do
“desenvolvimento” da Amazônia. Famílias inteiras eram atraídas para a região
com promessas vagas e, uma vez lá, ficavam abandonadas: sem terra regularizada,
sem infraestrutura, sem proteção. Dorothy abraça a causa dessas pessoas e passa
a lutar junto à justiça e ao Incra para que pudessem ao menos garantir um
pequeno pedaço de terra para morar, plantar e sobreviver.
Essa luta, no entanto,
confrontava diretamente os interesses dos grandes fazendeiros. Eles não queriam
convivência, nem reforma agrária, nem justiça social, queriam a terra. Terras
públicas apropriadas ilegalmente, transformadas em propriedade privada por meio
de violência e de conchavos políticos. Desmata-se tudo, planta-se uma ou duas
vezes até o solo virar areia, e depois transforma-se o território em pasto para
bois, sob o discurso da “produtividade”.
Contra essa lógica predatória,
Dorothy propunha um modelo de agrofloresta:
plantar mantendo a floresta viva. Um projeto simples, sustentável e
profundamente subversivo, porque colocava em xeque o modelo econômico
dominante. Ela incomodava porque orientava, esclarecia, organizava. Porque
caminhava ao lado dos mais pobres e não aceitava o silêncio como forma de
sobrevivência.
Seu assassinato, brutal e
anunciado, é apresentado no livro não como um fim, mas como um ponto de
inflexão. Dorothy Stang foi morta porque ousou permanecer. O Brasil retratado
aqui, e que infelizmente ainda persiste, é o país que mais mata ambientalistas
no mundo. Os executores foram presos; os mandantes, embora identificados,
jamais punidos.
O que eles não previram é que
sua morte se tornaria semente.
Em vez de silenciar a luta, fortaleceu-a. A Dádiva Maior
é, assim, mais do que uma biografia: é um testemunho incômodo sobre o Brasil
profundo, sobre a violência estrutural no campo e sobre o preço pago por
aqueles — e sobretudo aquelas — que ousam defender a vida onde só se reconhece
lucro.
Binka Le Breton nasceu em Wiltshire, Reino Unido. É uma
escritora britânica.


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