quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Um Certo Capitão Rodrigo — sedução, liberdade e a força de Bibiana


 

UM CERTO CAPITÃO RODRIGO

ÉRICO VERÍSSIMO

COMPANHIA DAS LETRAS - 2005

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


Um Certo Capitão Rodrigo é um daqueles livros que a gente guarda com afeto. Há nele uma vibração diferente, mais viva, mais solar, marcada pela figura carismática de Rodrigo Cambará — conquistador, andarilho, provocador das normas — e, sobretudo, pela presença firme de Bibiana, que não se deixa apagar pelo brilho masculino.

Rodrigo entra na narrativa como quem entra numa cidade: anunciando-se, ocupando espaço, desafiando regras. Seu jeito sedutor, livre, quase teatral, faz dele uma figura magnética. Mas Érico Veríssimo não constrói um herói simples. O mesmo impulso que encanta também desestabiliza; a mesma liberdade que seduz traz insegurança e conflito. Rodrigo é movimento, enquanto a vida exige permanência.

É Bibiana, porém, quem sustenta a densidade do romance. Sua força não é estridente, mas sólida. Ela ama, escolhe, enfrenta a família, aceita o risco de se unir a um homem que não se encaixa. Bibiana não é ingênua diante do temperamento de Rodrigo; ela sabe com quem está lidando e, ainda assim, decide. Há nela uma autonomia rara para personagens femininas de romances históricos: não é prêmio, não é sombra, não é apêndice.

A relação entre Bibiana e Rodrigo se constrói nesse contraste: ele, o conquistador, o que passa; ela, a que fica, a que sustenta, a que transforma a instabilidade em vida possível. Enquanto Rodrigo se move pelo mundo, Bibiana cria raízes. E é nessa diferença que se revela sua força maior.

Lido na juventude, o romance encanta pela aventura e pelo carisma do Capitão Rodrigo. Lido mais tarde, ele revela algo mais profundo: a história de uma mulher que escolhe amar sem se dissolver no outro. Bibiana não perde a si mesma na relação; ao contrário, afirma-se dentro dela.

Talvez seja por isso que Um Certo Capitão Rodrigo permaneça tão querido. Não apenas pelo charme do personagem masculino, mas porque, por trás dele, há uma mulher que sustenta a narrativa com firmeza, coragem e presença. Sem Bibiana, Rodrigo seria apenas passagem. Com ela, a história permanece.



Nenhum comentário:

Postar um comentário