DE PERTO E DE LONGE
CLAUDE
LÉVI-STRAUSS E DIDIER ERIBON
COSAC & NAIFY
– 1ª ED. 2005
272 páginas
Em De Perto e de Longe,
Didier Eribon entrevista Claude Lévi-Strauss. O livro é particularmente
instigante para quem deseja conhecer não apenas a obra, mas o percurso de vida
e de pensamento desse que foi um dos grandes mestres da antropologia do século
XX. Não se trata de uma entrevista protocolar, mas de uma travessia biográfica
e intelectual, marcada por deslocamentos, hesitações e escolhas que ajudam a
compreender a formação de um pensamento singular.
O relato de Lévi-Strauss é
fascinante justamente porque não constrói uma narrativa heroica de si. Ao
contrário, ele revisita sua trajetória com distanciamento, quase com pudor. Seu
percurso entre filosofia, antropologia, exílio, trabalho de campo e reflexão
estrutural — aparece como algo que se fez aos poucos, muitas vezes contra
expectativas iniciais. Para quem, como eu, estuda filosofia, mas sente que o
desejo maior aponta para a antropologia, esse livro funciona também como
espelho e estímulo.
Um dos momentos mais
interessantes da entrevista é quando Lévi-Strauss retoma sua aproximação entre
antropologia e psicanálise. Foi ele quem comparou o xamã ao analista,
ressaltando tanto as semelhanças quanto as diferenças entre esses dois modos de
escuta e intervenção simbólica. No entanto, é também o mesmo Lévi-Strauss que,
em A Oleira Ciumenta, formula uma crítica rigorosa à
psicanálise. Essa ambivalência não é contradição, mas método: aproxima-se para
compreender, afasta-se para pensar.
Talvez um dos aspectos mais
intrigantes do livro seja a recorrente afirmação de Lévi-Strauss de que não se
lembra de nada, de que esquece tudo. Essa confissão, vinda de alguém cuja obra
é atravessada por mitos, estruturas e sistemas de memória coletiva, produz um
efeito quase paradoxal. Mas é justamente aí que o livro se abre para uma
reflexão mais profunda: talvez lembrar exija esquecer. Talvez o pensamento só
se organize quando o excesso de memória cede lugar à estrutura.
Nesse sentido, De
Perto e de Longe não é apenas um livro sobre Lévi-Strauss, mas
sobre o próprio ato de pensar. Um pensamento que não se ancora na autobiografia
como confissão, mas no distanciamento; que não acumula lembranças, mas as
reorganiza; que só pode ver de perto porque aprendeu, antes, a olhar de longe.
Claude Lévi-Strauss nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 1908 e faleceu em Paris, França, em 2009. Foi um antropólogo.
Didier Eribon nasceu em Reims, França, em 1953. É um escritor
e filósofo francês.


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