A NOVA ERA DO IMPÉRIO: como o racismo e o colonialismo ainda
dominam o mundo
KEHINDE ANDREWS
COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2023
No campo do feminismo, temos
estudado cada vez mais as questões da decolonialidade. Falamos sobre mulheres
indígenas, sobre mulheres latino-americanas, sobre epistemologias outras. Mas
trata-se de um debate muito mais amplo, que atravessa o próprio modo como o
mundo moderno foi constituído — algo que autoras como Vandana Shiva demonstram
com clareza em seus livros. Neste ano, inclusive, pretendo ler sua
autobiografia, Terra Viva.
Kehinde
Andrews é professor de Estudos Negros na Birmingham City University, no Reino
Unido. Em A nova era do império, ele
desmonta a ideia de que o colonialismo e o racismo pertencem ao passado. Ao
contrário, mostra como ambos seguem estruturando o mundo contemporâneo, em
nível global.
Quando
lemos sobre o tráfico de pessoas negras, costumamos focar sobretudo na América
Latina e na América do Norte. Andrews amplia radicalmente esse horizonte. O
tráfico foi muito mais extenso, alcançando também regiões como a Índia — tema
que será tratado em Diáspora africana na
Índia, de Andreas Hofbauer, leitura que ainda não realizei. Neste livro,
Andrews dá especial atenção ao papel da Inglaterra na escravização de pessoas e
a como o sistema escravista foi fundamental para a expansão do capitalismo e
para o acúmulo de capital que sustentou o poder europeu.
O
autor nos ajuda a compreender o racismo estrutural em escala global — algo que,
no Brasil, conhecemos de forma particularmente concreta. Sua tese central
confronta uma narrativa muito difundida: a de que o Ocidente teria sido fundado
pelas chamadas grandes revoluções — científica, industrial e política. Andrews
argumenta que o verdadeiro alicerce do Ocidente foi a colonização, a
escravização de pessoas e o genocídio de povos inteiros, como os ameríndios.
Ao
longo do livro, ele demonstra como o racismo e a xenofobia permanecem ativos no
substrato das sociedades atuais. Analisa também o papel dos filósofos
iluministas, revelando o quanto muitos deles foram profundamente racistas e
forneceram respaldo intelectual à colonização, à escravidão e à exploração dos
recursos de outros territórios. Foi assim, e não por uma suposta superioridade
intelectual, que a Europa se enriqueceu e se tornou o que é hoje.
Há,
no entanto, passagens que suscitam questionamentos, como a ideia de um possível
imperialismo brasileiro contemporâneo na África. Esse é um ponto que exige
maior aprofundamento e estudo, para avaliar até que medida tal leitura se
sustenta. Ainda assim, trata-se de um livro fundamental para quem deseja
compreender o mundo atual para além das narrativas confortáveis do progresso
ocidental.
Kehinde Andrews nasceu em 1983. É acadêmico e autor
britânico especializado em estudos afro-americanos.


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