sábado, 7 de fevereiro de 2026

UMA LEITURA DECOLONIAL SOBRE A ORIGEM DO MUNDO MODERNO

 


A NOVA ERA DO IMPÉRIO: como o racismo e o colonialismo ainda dominam o mundo

KEHINDE ANDREWS

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2023

No campo do feminismo, temos estudado cada vez mais as questões da decolonialidade. Falamos sobre mulheres indígenas, sobre mulheres latino-americanas, sobre epistemologias outras. Mas trata-se de um debate muito mais amplo, que atravessa o próprio modo como o mundo moderno foi constituído — algo que autoras como Vandana Shiva demonstram com clareza em seus livros. Neste ano, inclusive, pretendo ler sua autobiografia, Terra Viva.

Kehinde Andrews é professor de Estudos Negros na Birmingham City University, no Reino Unido. Em A nova era do império, ele desmonta a ideia de que o colonialismo e o racismo pertencem ao passado. Ao contrário, mostra como ambos seguem estruturando o mundo contemporâneo, em nível global.

Quando lemos sobre o tráfico de pessoas negras, costumamos focar sobretudo na América Latina e na América do Norte. Andrews amplia radicalmente esse horizonte. O tráfico foi muito mais extenso, alcançando também regiões como a Índia — tema que será tratado em Diáspora africana na Índia, de Andreas Hofbauer, leitura que ainda não realizei. Neste livro, Andrews dá especial atenção ao papel da Inglaterra na escravização de pessoas e a como o sistema escravista foi fundamental para a expansão do capitalismo e para o acúmulo de capital que sustentou o poder europeu.

O autor nos ajuda a compreender o racismo estrutural em escala global — algo que, no Brasil, conhecemos de forma particularmente concreta. Sua tese central confronta uma narrativa muito difundida: a de que o Ocidente teria sido fundado pelas chamadas grandes revoluções — científica, industrial e política. Andrews argumenta que o verdadeiro alicerce do Ocidente foi a colonização, a escravização de pessoas e o genocídio de povos inteiros, como os ameríndios.

Ao longo do livro, ele demonstra como o racismo e a xenofobia permanecem ativos no substrato das sociedades atuais. Analisa também o papel dos filósofos iluministas, revelando o quanto muitos deles foram profundamente racistas e forneceram respaldo intelectual à colonização, à escravidão e à exploração dos recursos de outros territórios. Foi assim, e não por uma suposta superioridade intelectual, que a Europa se enriqueceu e se tornou o que é hoje.

Há, no entanto, passagens que suscitam questionamentos, como a ideia de um possível imperialismo brasileiro contemporâneo na África. Esse é um ponto que exige maior aprofundamento e estudo, para avaliar até que medida tal leitura se sustenta. Ainda assim, trata-se de um livro fundamental para quem deseja compreender o mundo atual para além das narrativas confortáveis do progresso ocidental.


Kehinde Andrews nasceu em 1983. É acadêmico e autor britânico especializado em estudos afro-americanos.


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