BANZEIRO ÒKÒTÓ: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo
ELIANE BRUM
COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2021.
Que livro magistral — e
dolorido. Dói ler Banzeiro Òkòtó, dói
reconhecer o que se passa na Amazônia brasileira. Eliane Brum não se furta à
denúncia e, ao fazê-lo, expõe também a si mesma. Em muitos momentos, é
impossível não pensar que sua escrita a coloca em risco.
Foi
a partir deste livro que consegui compreender de forma mais profunda o que
significou a construção da Usina de Belo Monte e seus efeitos devastadores
sobre a população ribeirinha. Trata-se de uma tragédia. Pessoas que viviam de
plantar, pescar, habitar a terra — que tinham casa, rotina, pertencimento —
perderam tudo. Foram arrancadas de seus territórios e lançadas à miséria,
confinadas em espaços sem uma única árvore. Perderam o chão, a paisagem e, com
isso, suas próprias identidades.
Os
depoimentos reunidos por Brum são dilacerantes. Crianças e adolescentes que se
suicidam após perderem qualquer horizonte de futuro. Entre viver sob a ameaça
constante de morte física ou simbólica e tirar a própria vida, escolhem se
matar. O livro fala de depressão, sofrimento psíquico, doenças mentais,
suicídios. Nada disso aparece como exceção, mas como consequência direta de um
projeto de destruição.
Mas
Banzeiro Òkòtó é também um livro sobre
luta e resistência. Sobre as “mortes matadas”, sobre Altamira — por anos
considerada a cidade mais violenta do país — e sobre a distância brutal entre
os donos do poder, suas esposas, seus privilégios, e os moradores abandonados à
própria sorte. A desigualdade aparece sem filtros, escancarada.
Eliane
Brum entrelaça essa investigação com fragmentos de sua própria trajetória. Fala
da infância no Rio Grande do Sul, do percurso que a levou à Amazônia e do
processo que ela mesma nomeia como “se aflorestar”. Há algo de profundamente
bonito — e transformador — nesse movimento. O capítulo sobre as tartarugas é
especialmente belo, embora atravesse o leitor com apreensão: acompanhamos seu
trajeto com medo de que não consigam chegar, torcendo junto, como se aquele
destino também nos dissesse respeito.
O
livro revela um Brasil distante das grandes capitais e dos centros econômicos,
um Brasil profundo invadido pelo agronegócio, por madeireiros, mineradores e
grandes hidrelétricas. Um Brasil esmagado por uma lógica capitalista que
destrói tudo o que há de belo, tudo o que é simples, tudo o que é natureza — e,
junto com ela, vidas inteiras.
Eliane Brum nasceu em Ijuí – RS, em 1966. É jornalista,
escritora e documentarista brasileira.

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