JANE EYRE
CHARLOTTE BRONTË
MARTIN CLARET –
1ª ED. 2015
Publicado em pleno período
vitoriano, Jane Eyre nasce em uma
sociedade rigidamente estruturada pelo moralismo puritano, pela divisão de
classes e por uma ética religiosa que regulava, de forma especialmente severa,
o comportamento feminino. Trata-se de uma Inglaterra atravessada por
contradições: prosperidade econômica impulsionada pela Revolução Industrial e
pelo imperialismo, mas também miséria urbana, exploração do trabalho e exclusão
social. Charlotte Brontë, filha de um pastor anglicano, escreve a partir desse
mundo — e contra ele.
A
presença da religião é constante na obra, seja por meio de referências
bíblicas, seja pela linguagem moral que atravessa os dilemas dos personagens.
No entanto, o que torna Jane Eyre um
romance profundamente inquietante para seu tempo é justamente a forma como
Brontë constrói uma protagonista feminina que não se limita a internalizar essa
moral. Jane busca, ao longo de toda a narrativa, não apenas a sobrevivência
material, mas sobretudo uma independência mental e intelectual.
Ela pode obedecer exteriormente, mas sua consciência permanece indomável.
Desde
a infância, Jane se recusa a aceitar a humilhação imposta pela madrasta e os
filhos desta. Sua rebeldia não é estridente, mas firme: nasce da recusa em
naturalizar a injustiça. Enviada para uma escola de órfãs, onde permanece por
oito anos — primeiro como aluna, depois como professora —, ela experimenta
tanto a disciplina rígida quanto a formação intelectual que lhe permitirá, mais
tarde, agir por conta própria. Quando decide partir, não espera ser escolhida:
toma a iniciativa de procurar trabalho sozinha.
Ao
se tornar governanta e preceptora de Adèle, Jane ocupa um dos poucos espaços
socialmente aceitáveis para mulheres sem fortuna, mas com alguma educação. É
nesse território ambíguo — entre o serviço doméstico e a respeitabilidade — que
ela conhece o Sr. Rochester. A relação entre ambos é marcada por tensão: ele é
autoritário, áspero, moldado por privilégios masculinos e por um passado de
sofrimento; ela, por sua vez, recusa o lugar da submissão emocional. O amor que
surge ali não é idealizado: é conflituoso, atravessado por desigualdades e por
um segredo que inviabiliza a união.
Quando
Jane parte, ela o faz para não trair a si mesma. Passa por dificuldades
extremas, até receber uma herança que lhe garante autonomia material — elemento
decisivo, mas não suficiente, para suas escolhas. Ao recusar um casamento que
lhe exigiria anular seus desejos e sua integridade, Jane afirma algo radical
para o século XIX: não basta ser escolhida, é preciso escolher.
O
retorno final a Rochester não representa uma capitulação romântica, mas um
reencontro em novas condições. Jane volta quando pode amar sem abdicar de si. Jane Eyre não é apenas um romance de
formação ou uma história de amor: é a narrativa de uma mulher que insiste em
existir como sujeito, em um mundo que sistematicamente tenta reduzi-la ao
silêncio.


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