sábado, 7 de fevereiro de 2026

JANE EYRE — INDEPENDÊNCIA FEMININA NO CORAÇÃO DO ROMANCE VITORIANO

 


JANE EYRE

CHARLOTTE BRONTË

MARTIN CLARET – 1ª ED. 2015

Publicado em pleno período vitoriano, Jane Eyre nasce em uma sociedade rigidamente estruturada pelo moralismo puritano, pela divisão de classes e por uma ética religiosa que regulava, de forma especialmente severa, o comportamento feminino. Trata-se de uma Inglaterra atravessada por contradições: prosperidade econômica impulsionada pela Revolução Industrial e pelo imperialismo, mas também miséria urbana, exploração do trabalho e exclusão social. Charlotte Brontë, filha de um pastor anglicano, escreve a partir desse mundo — e contra ele.

A presença da religião é constante na obra, seja por meio de referências bíblicas, seja pela linguagem moral que atravessa os dilemas dos personagens. No entanto, o que torna Jane Eyre um romance profundamente inquietante para seu tempo é justamente a forma como Brontë constrói uma protagonista feminina que não se limita a internalizar essa moral. Jane busca, ao longo de toda a narrativa, não apenas a sobrevivência material, mas sobretudo uma independência mental e intelectual. Ela pode obedecer exteriormente, mas sua consciência permanece indomável.

Desde a infância, Jane se recusa a aceitar a humilhação imposta pela madrasta e os filhos desta. Sua rebeldia não é estridente, mas firme: nasce da recusa em naturalizar a injustiça. Enviada para uma escola de órfãs, onde permanece por oito anos — primeiro como aluna, depois como professora —, ela experimenta tanto a disciplina rígida quanto a formação intelectual que lhe permitirá, mais tarde, agir por conta própria. Quando decide partir, não espera ser escolhida: toma a iniciativa de procurar trabalho sozinha.

Ao se tornar governanta e preceptora de Adèle, Jane ocupa um dos poucos espaços socialmente aceitáveis para mulheres sem fortuna, mas com alguma educação. É nesse território ambíguo — entre o serviço doméstico e a respeitabilidade — que ela conhece o Sr. Rochester. A relação entre ambos é marcada por tensão: ele é autoritário, áspero, moldado por privilégios masculinos e por um passado de sofrimento; ela, por sua vez, recusa o lugar da submissão emocional. O amor que surge ali não é idealizado: é conflituoso, atravessado por desigualdades e por um segredo que inviabiliza a união.

Quando Jane parte, ela o faz para não trair a si mesma. Passa por dificuldades extremas, até receber uma herança que lhe garante autonomia material — elemento decisivo, mas não suficiente, para suas escolhas. Ao recusar um casamento que lhe exigiria anular seus desejos e sua integridade, Jane afirma algo radical para o século XIX: não basta ser escolhida, é preciso escolher.

O retorno final a Rochester não representa uma capitulação romântica, mas um reencontro em novas condições. Jane volta quando pode amar sem abdicar de si. Jane Eyre não é apenas um romance de formação ou uma história de amor: é a narrativa de uma mulher que insiste em existir como sujeito, em um mundo que sistematicamente tenta reduzi-la ao silêncio.



Charlotte Brontë nasceu em Thornton em 1816 e faleceu em Haworth em 1855. Foi uma escritora britânica. 

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