MINHA CARNE: DIÁRIO DE UMA PRISÃO
PRETA FERREIRA
BOITEMPO EDITORIAL – 1ª ED. 2021
Em Minha carne, Preta Ferreira relata o que viveu e sentiu
durante sua prisão injusta, decorrente de uma denúncia anônima jamais
devidamente investigada. O caso escancara, mais uma vez, o funcionamento do
racismo estrutural no sistema de justiça brasileiro.
Por
possuir ensino superior, Preta foi mantida em uma ala especial do presídio.
Ainda assim, isso não a afastou da realidade das outras mulheres encarceradas.
Ao contrário: ela escuta, observa e registra as histórias das detentas do outro
pavilhão, dando visibilidade a vidas que o Estado insiste em apagar.
São
relatos duros. Algumas mulheres estão presas por homicídio, mas mesmo nesses
casos é impossível não perceber como a dominação masculina, o machismo e a
violência atravessam suas trajetórias. Outras foram encarceradas por pura
ingenuidade ou vulnerabilidade extrema — como mulheres que, ao visitar parentes
presos, aceitam levar cigarros para terceiros e acabam flagradas com drogas
escondidas nos maços. Há também a história particularmente triste de uma
senhora idosa que prefere permanecer no presídio, por considerá-lo menos
violento e degradante do que viver nas ruas ou em condições absolutamente
inóspitas.
A
presença de Preta no presídio acaba produzindo fissuras naquele sistema. Por
ser uma figura pública, visitada por artistas, intelectuais e políticos —
muitas vezes com câmeras e registros —, sua permanência gera temor na
administração da unidade, receosa de denúncias sobre o que ocorre dentro dos
muros. Isso resulta, ainda que de forma limitada, em algumas melhorias nas
condições do presídio.
A
experiência do cárcere leva Preta a compreender de forma mais profunda a
realidade do sistema prisional brasileiro e a ampliar sua luta política para
incluir essas mulheres invisibilizadas. Ao deixar a prisão, no entanto, ela não
recupera plenamente a liberdade: passa a cumprir prisão domiciliar, com
controle rigoroso de horários e necessidade constante de prestar contas de seus
deslocamentos. Pouco depois, o país mergulha na pandemia.
Há
também momentos de respiro e afeto no relato, como a visita de Angela Davis à
sua casa — um encontro simbólico e potente, que reafirma a dimensão coletiva de
sua luta.
Minha carne é uma leitura fundamental, tanto
pela coragem e determinação de Preta Ferreira quanto por revelar, a partir de
dentro, o funcionamento cruel do sistema prisional brasileiro. O livro também
oferece uma porta de entrada importante para compreender o movimento dos
sem-teto urbanos e as intersecções entre racismo, classe, gênero e
criminalização da pobreza.
Janice Ferreira da Silva, mais conhecida como Preta Ferreira,
nasceu na Bahia em 1983. É uma ativista por moradia, pelos direitos humanos,
multiartista e escritora.


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