sábado, 7 de fevereiro de 2026

RACISMO ESTRUTURAL E CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA

 


MINHA CARNE: DIÁRIO DE UMA PRISÃO

PRETA FERREIRA

BOITEMPO EDITORIAL – 1ª ED. 2021

Em Minha carne, Preta Ferreira relata o que viveu e sentiu durante sua prisão injusta, decorrente de uma denúncia anônima jamais devidamente investigada. O caso escancara, mais uma vez, o funcionamento do racismo estrutural no sistema de justiça brasileiro.

Por possuir ensino superior, Preta foi mantida em uma ala especial do presídio. Ainda assim, isso não a afastou da realidade das outras mulheres encarceradas. Ao contrário: ela escuta, observa e registra as histórias das detentas do outro pavilhão, dando visibilidade a vidas que o Estado insiste em apagar.

São relatos duros. Algumas mulheres estão presas por homicídio, mas mesmo nesses casos é impossível não perceber como a dominação masculina, o machismo e a violência atravessam suas trajetórias. Outras foram encarceradas por pura ingenuidade ou vulnerabilidade extrema — como mulheres que, ao visitar parentes presos, aceitam levar cigarros para terceiros e acabam flagradas com drogas escondidas nos maços. Há também a história particularmente triste de uma senhora idosa que prefere permanecer no presídio, por considerá-lo menos violento e degradante do que viver nas ruas ou em condições absolutamente inóspitas.

A presença de Preta no presídio acaba produzindo fissuras naquele sistema. Por ser uma figura pública, visitada por artistas, intelectuais e políticos — muitas vezes com câmeras e registros —, sua permanência gera temor na administração da unidade, receosa de denúncias sobre o que ocorre dentro dos muros. Isso resulta, ainda que de forma limitada, em algumas melhorias nas condições do presídio.

A experiência do cárcere leva Preta a compreender de forma mais profunda a realidade do sistema prisional brasileiro e a ampliar sua luta política para incluir essas mulheres invisibilizadas. Ao deixar a prisão, no entanto, ela não recupera plenamente a liberdade: passa a cumprir prisão domiciliar, com controle rigoroso de horários e necessidade constante de prestar contas de seus deslocamentos. Pouco depois, o país mergulha na pandemia.

Há também momentos de respiro e afeto no relato, como a visita de Angela Davis à sua casa — um encontro simbólico e potente, que reafirma a dimensão coletiva de sua luta.

Minha carne é uma leitura fundamental, tanto pela coragem e determinação de Preta Ferreira quanto por revelar, a partir de dentro, o funcionamento cruel do sistema prisional brasileiro. O livro também oferece uma porta de entrada importante para compreender o movimento dos sem-teto urbanos e as intersecções entre racismo, classe, gênero e criminalização da pobreza.


Janice Ferreira da Silva, mais conhecida como Preta Ferreira, nasceu na Bahia em 1983. É uma ativista por moradia, pelos direitos humanos, multiartista e escritora.


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