A MAIS RECÔNDITA MEMÓRIA DOS HOMENS
MOHAMED MBOUGAR SARR
FÓSFORO – 1ª ED. 2023
Magistral! Há muito tempo não
lia algo tão rico, um livro que celebra a própria literatura em cada página.
Mohamed Mbougar Sarr cria uma narrativa que é, simultaneamente, investigação,
reflexão e homenagem à escrita. Tudo começa com a busca de um autor desaparecido,
cujo livro, celebrado na França, passou a ser acusado de plágio. E é nesse jogo
de autoria, reconhecimento e intertextualidade que Sarr opera com incrível
precisão: há trechos que evocam outros autores, seja propositalmente, seja como
gesto literário de diálogo com a tradição.
O
romance dialoga com múltiplos registros: pode-se notar elementos de realismo
mágico, embora seja complicado reduzir a experiência africana a esse rótulo,
dada a riqueza de mitos, superstições, adivinhos e visões que atravessam o
continente. Há cenas memoráveis, como a de um Cristo pintado na parede, que
funcionam como símbolos de presença e ausência, fé e memória. Outro recurso
notável é o uso de biografemas, termo proposto por
Roland Barthes: informações que os personagens desconhecem, mas que o leitor
recebe, permitindo uma compreensão mais ampla dos acontecimentos e uma
experiência de leitura quase de cumplicidade com o autor. É como se pudéssemos
sussurrar aos personagens o que eles não sabem, completando a narrativa por
fora da consciência deles.
A
história se encadeia aos poucos, entre França, Argentina, África e Holanda, na
busca pelo autor desaparecido. Essa travessia geográfica e temporal não é
apenas física: ela toca as tragédias do colonialismo, do holocausto, e das
violências que moldam a memória coletiva. A narrativa constrói, passo a passo,
um mosaico literário e histórico que exige do leitor atenção e entrega, mas
recompensa com uma experiência literária intensa e múltipla.
No
fim, A mais recôndita memória dos homens
é mais que um romance: é uma ode à literatura, à escrita, à memória e ao
diálogo entre passado e presente, entre autores e leitores, entre culturas e
histórias que insistem em atravessar o tempo.

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