MULHERES QUILOMBOLAS: Territórios de existências negras
femininas
JADAÍRA – 1ª ED. – 2020
Que livro belo e necessário. Mulheres quilombolas reúne os relatos de
diversas mulheres que narram suas vidas, suas histórias e as de suas
comunidades. O que mais me chamou a atenção foi a diferença marcante entre o
que significa ser uma mulher negra urbana e ser uma mulher negra quilombola,
sobretudo no que diz respeito à centralidade do coletivo.
Em
um dos relatos, ao tratar da violência doméstica, uma das mulheres se recusa a
recorrer ao sistema de justiça formal. Para ela, o encarceramento ou o
afastamento do homem rompe o tecido comunitário, já que ele também faz parte do
coletivo. Em vez disso, as mulheres se reúnem, conversam sobre o problema e,
posteriormente, convocam a comunidade para pensar conjuntamente formas de
transformar esse comportamento. Trata-se de uma prática potente, que aposta na
responsabilidade coletiva e na possibilidade real de mudança, sem reproduzir
automaticamente a lógica punitiva do Estado.
Ao
longo do livro, elas relatam suas dificuldades e lutas pelo direito ao
território, pela preservação de suas tradições e pelo reconhecimento de seus
modos de vida. A ancestralidade, os rituais e, sobretudo, a agricultura
ecológica aparecem como eixos fundamentais, com destaque para a preservação das
sementes crioulas, guardiãs de saberes e de futuro.
Um
termo que há muito não via ser mobilizado com tanta força é o da dádiva: a
troca, o cuidado, o respeito mútuo como princípios organizadores da vida.
Muitas vezes, essas comunidades são vistas de forma distorcida, acusadas de
serem “acomodadas” ou de ocuparem terras que poderiam ser exploradas pelo
agronegócio — visão incentivada, inclusive, por políticas governamentais. O que
se ignora é que justamente nesses territórios e nesses saberes reside uma das
respostas mais concretas àquilo que hoje chamamos de crise climática.
Os
conhecimentos ancestrais sobre a relação com a terra e a natureza são
absolutamente centrais no presente e precisam ser preservados. As mulheres
quilombolas lutam por isso, assim como mulheres indígenas e outras comunidades
tradicionais. Trata-se de um saber que foi, em grande parte, perdido pelo mundo
dito civilizado, mas que talvez seja o mais importante para nossa sobrevivência
hoje.
Em
tempos de individualismo extremo, a centralidade do coletivo que atravessa
esses relatos é uma lição urgente. Vale muito a leitura: para conhecer as
mulheres quilombolas e, sobretudo, para aprender a olhar para elas com profundo
respeito.
Selma dos Santos Dealdina nasceu em São Mateus, Espírito
Santo, em 1982. Produtora cultural, militante e ativista do movimento social
negro e quilombola.


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