segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O QUE AS MULHERES QUILOMBOLAS ENSINAM AO MUNDO DITO CIVILIZADO


 

MULHERES QUILOMBOLAS: Territórios de existências negras femininas

SELMA DOS SANTOS DEALDINA

JADAÍRA – 1ª ED. – 2020


Que livro belo e necessário. Mulheres quilombolas reúne os relatos de diversas mulheres que narram suas vidas, suas histórias e as de suas comunidades. O que mais me chamou a atenção foi a diferença marcante entre o que significa ser uma mulher negra urbana e ser uma mulher negra quilombola, sobretudo no que diz respeito à centralidade do coletivo.

Em um dos relatos, ao tratar da violência doméstica, uma das mulheres se recusa a recorrer ao sistema de justiça formal. Para ela, o encarceramento ou o afastamento do homem rompe o tecido comunitário, já que ele também faz parte do coletivo. Em vez disso, as mulheres se reúnem, conversam sobre o problema e, posteriormente, convocam a comunidade para pensar conjuntamente formas de transformar esse comportamento. Trata-se de uma prática potente, que aposta na responsabilidade coletiva e na possibilidade real de mudança, sem reproduzir automaticamente a lógica punitiva do Estado.

Ao longo do livro, elas relatam suas dificuldades e lutas pelo direito ao território, pela preservação de suas tradições e pelo reconhecimento de seus modos de vida. A ancestralidade, os rituais e, sobretudo, a agricultura ecológica aparecem como eixos fundamentais, com destaque para a preservação das sementes crioulas, guardiãs de saberes e de futuro.

Um termo que há muito não via ser mobilizado com tanta força é o da dádiva: a troca, o cuidado, o respeito mútuo como princípios organizadores da vida. Muitas vezes, essas comunidades são vistas de forma distorcida, acusadas de serem “acomodadas” ou de ocuparem terras que poderiam ser exploradas pelo agronegócio — visão incentivada, inclusive, por políticas governamentais. O que se ignora é que justamente nesses territórios e nesses saberes reside uma das respostas mais concretas àquilo que hoje chamamos de crise climática.

Os conhecimentos ancestrais sobre a relação com a terra e a natureza são absolutamente centrais no presente e precisam ser preservados. As mulheres quilombolas lutam por isso, assim como mulheres indígenas e outras comunidades tradicionais. Trata-se de um saber que foi, em grande parte, perdido pelo mundo dito civilizado, mas que talvez seja o mais importante para nossa sobrevivência hoje.

Em tempos de individualismo extremo, a centralidade do coletivo que atravessa esses relatos é uma lição urgente. Vale muito a leitura: para conhecer as mulheres quilombolas e, sobretudo, para aprender a olhar para elas com profundo respeito.


Selma dos Santos Dealdina nasceu em São Mateus, Espírito Santo, em 1982. Produtora cultural, militante e ativista do movimento social negro e quilombola. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário