segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

UM OLHAR SEM ILUSÕES SOBRE O SÉCULO XX

 


A LEBRE DA PATAGÔNIA

CLAUDE LANZMANN

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2011

Comprei este livro para ler a versão de Claude Lanzmann sobre sua vida com Simone de Beauvoir, mas fui surpreendida pela amplitude de seu conteúdo. A Lebre da Patagônia é um livro de memórias que atravessa o século XX a partir de uma experiência singular, intensa e profundamente política.

Lanzmann revisita sua participação na Resistência durante a Segunda Guerra Mundial, suas impressões, enquanto judeu, sobre Israel, e suas viagens à Coreia do Norte e à China. Nessas passagens, apresenta uma visão crítica e realista, bastante distinta daquela que, à época, levou muitos intelectuais a louvar o comunismo e o maoísmo sem maiores questionamentos.

O livro aborda também sua relação com Simone de Beauvoir, mas não se reduz a ela. Entrelaçam-se a essa narrativa o processo de realização de Shoah, seu filme monumental sobre o extermínio dos judeus, revelando não apenas os bastidores das filmagens, mas o peso ético e existencial que atravessou toda a sua feitura.

A leitura vale muito a pena, inclusive por sua estrutura: o livro não segue uma ordem cronológica linear, mas avança conforme as lembranças emergem. Esse movimento fragmentado constrói, pouco a pouco, um panorama complexo e perturbador do século XX, visto por alguém que o viveu intensamente — sem ilusões e sem concessões.


Claude Lanzmann nasceu em Bois-Colombe, França, em 1925 e faleceu em Paris em 2018. Foi um cineasta conhecido pelo documentário Shoah (1985).


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