segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

UMA OUTRA LEITURA DA DIFERENÇA SEXUAL NA HISTÓRIA

 

A DIFERENÇA SEXUAL NA HISTÓRIA

MARÍA-MILAGROS RIVERA GARRETAS

GINNA – 1ª ED. 2025

Estou profundamente impactada por este livro. María-Milagros Rivera Garretas, filósofa espanhola, desenvolve aqui uma teoria da diferença sexual na história que se coloca antes, e não contra a teoria de gênero. Sem nada de reacionário, ela sustenta que mulheres e homens são diferentes, pensam de maneiras diferentes, e que essa diferença deve ser valorizada e incorporada aos estudos da história das mulheres.

Um dos pontos centrais de sua reflexão é a revalorização da língua materna — aquela que aprendemos com nossas mães. Tradicionalmente, essa língua foi classificada como semiótica, enquanto a língua fálica seria considerada a verdadeiramente simbólica. María-Milagros recusa essa hierarquia: para ela, a língua materna é simbólica. Em lugar do Nome do Pai, consagrado por Lacan, ela propõe o Nome da Mãe.

Não há aqui nenhum essencialismo — muito pelo contrário. Não se trata de uma “natureza feminina”, e a autora inclui explicitamente as mulheres trans em sua reflexão. Ao mesmo tempo, defende que os homens também precisam reencontrar sua masculinidade na língua da mãe, nessa primeira língua que nos constitui e, paradoxalmente, nos liberta.

María-Milagros aponta exemplos históricos dessa língua materna viva e atuante: as trovadoras (trobairitz), as mulheres cátaras, as místicas, as beguinas e as preciosas que conduziam salões literários. Espaços em que, por meio da palavra, rompiam as fronteiras entre o público e o privado.

Sua crítica à teoria de gênero não é uma negação, mas um deslocamento. Para ela, ao focar prioritariamente nas relações de poder, a teoria de gênero acaba deixando de lado algo fundamental: as próprias relações — e o amor. Não o amor romântico, mas um amor em um sentido muito mais amplo, quase esquecido entre nós. Hoje, falar de amor parece difícil, ou até ridículo, para alguns.

Eu mesma vinha me perguntando: em que momento os sexos deixaram de se amar? Quando os homens passaram a odiar as mulheres? Evidentemente, não todos. Mas basta olhar para a semana passada e para o horror das mulheres mortas ou agredidas. Este livro chegou como uma luva — e ainda estou digerindo. Há muito a aprender.

Sempre me perguntei se existia uma linguagem que não fosse fálica. María-Milagros está me respondendo.



María-Milagros Rivera Garretas nasceu em Bilbao, Espanha, em 1947. É historiadora.


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