A
DIFERENÇA SEXUAL NA HISTÓRIA
MARÍA-MILAGROS
RIVERA GARRETAS
GINNA – 1ª
ED. 2025
Estou profundamente impactada
por este livro. María-Milagros Rivera Garretas, filósofa espanhola, desenvolve
aqui uma teoria da diferença sexual na história que se coloca antes, e não contra a teoria
de gênero. Sem nada de reacionário, ela sustenta que mulheres e homens são
diferentes, pensam de maneiras diferentes, e que essa diferença deve ser
valorizada e incorporada aos estudos da história das mulheres.
Um
dos pontos centrais de sua reflexão é a revalorização da língua materna —
aquela que aprendemos com nossas mães. Tradicionalmente, essa língua foi
classificada como semiótica, enquanto a língua fálica seria considerada a
verdadeiramente simbólica. María-Milagros recusa essa hierarquia: para ela, a
língua materna é simbólica. Em lugar do
Nome do Pai, consagrado por Lacan, ela propõe o Nome da Mãe.
Não
há aqui nenhum essencialismo — muito pelo contrário. Não se trata de uma
“natureza feminina”, e a autora inclui explicitamente as mulheres trans em sua
reflexão. Ao mesmo tempo, defende que os homens também precisam reencontrar sua
masculinidade na língua da mãe, nessa primeira língua que nos constitui e,
paradoxalmente, nos liberta.
María-Milagros
aponta exemplos históricos dessa língua materna viva e atuante: as trovadoras
(trobairitz), as mulheres cátaras, as místicas, as beguinas e as preciosas que
conduziam salões literários. Espaços em que, por meio da palavra, rompiam as
fronteiras entre o público e o privado.
Sua
crítica à teoria de gênero não é uma negação, mas um deslocamento. Para ela, ao
focar prioritariamente nas relações de poder, a teoria de gênero acaba deixando
de lado algo fundamental: as próprias relações — e o amor. Não o amor
romântico, mas um amor em um sentido muito mais amplo, quase esquecido entre
nós. Hoje, falar de amor parece difícil, ou até ridículo, para alguns.
Eu
mesma vinha me perguntando: em que momento os sexos deixaram de se amar? Quando
os homens passaram a odiar as mulheres? Evidentemente, não todos. Mas basta
olhar para a semana passada e para o horror das mulheres mortas ou agredidas.
Este livro chegou como uma luva — e ainda estou digerindo. Há muito a aprender.
Sempre
me perguntei se existia uma linguagem que não fosse fálica. María-Milagros está
me respondendo.
María-Milagros
Rivera Garretas nasceu em Bilbao, Espanha, em 1947. É historiadora.


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