DESCOLONIZANDO METODOLOGIAS: PESQUISA E POVOS INDÍGENAS
EDITORA UFPR – 2019
239 páginas
Linda Tuhiwai Smith (Ngāti Awa e
Ngāti Porou, Māori) é uma estudiosa da educação e uma crítica contundente do
colonialismo persistente no ensino e na pesquisa acadêmica.
O livro aborda a pesquisa
acadêmica realizada sobre povos indígenas, com
ênfase nas pesquisas conduzidas junto aos Māori da Nova Zelândia. Na primeira
parte, a autora faz uma crítica ao Iluminismo e ao pensamento ocidental,
argumentando que eles não podem, nem devem, ser aplicados de forma universal a
pesquisas que envolvem outras culturas. A arrogância epistêmica que sustenta a
ideia de que apenas a pesquisa ocidental é objetiva, imparcial e
verdadeiramente científica cria enormes dificuldades para pesquisadores indígenas.
Mesmo aqueles formados dentro da tradição acadêmica ocidental enfrentam
obstáculos significativos e, quando não seguem estritamente suas normas
metodológicas, muitas vezes sequer são ouvidos.
Na segunda parte, Smith
demonstra o que é fundamental para uma pesquisa indígena: o que pode e deve ser
feito, quais são os limites, as dificuldades e os obstáculos. Apresenta, ainda,
um exemplo concreto da Nova Zelândia que vem funcionando de maneira respeitosa
e produtiva, mostrando que outras formas de pesquisa são possíveis.
A autora enfatiza a posição
indígena em relação às pesquisas e aos pesquisadores. Muitos povos resistem à
pesquisa acadêmica porque, historicamente, ela foi feita sobre
eles, mas nunca para eles. Essas pesquisas
não lhes trouxeram benefícios concretos. Encontrei essa mesma situação ao ler o
livro sobre a cosmopolítica do cuidado da pesquisadora Nathalia Dothling,
realizado com mulheres quilombolas em Santa Catarina: a desconfiança em relação
aos pesquisadores e a falta de crédito concedido a estudos que não produzem
nenhum retorno para a comunidade pesquisada.
Além disso, há todo um conjunto
de rituais e protocolos a serem respeitados, de acordo com a cultura de cada
povo: com quem falar primeiro, os rituais de hospitalidade, as formas de
demonstrar respeito e, sobretudo, a construção de confiança. Esses elementos
são ignorados pelas metodologias tradicionais.
Os povos indígenas estão
cansados de ser apenas objetos de pesquisa. Eles querem ser sujeitos do
processo, desejam pesquisas que lhes tragam benefícios reais, que sejam úteis
para enfrentar suas próprias questões e desafios.
Outro problema central apontado
por Smith é que, ao se aplicar exclusivamente uma epistemologia e uma
metodologia ocidentais, não se consegue adentrar verdadeiramente a cultura do
outro. O resultado disso são inúmeras publicações que acabam produzindo ideologias,
muitas vezes nefastas, sobre esses povos, gerando visões racializadas,
distorcidas e falsas.
Linda Tuhiwai Smith nasceu em 1950 na Nova Zelândia. Faz
parte dos povos indígenas Ngati Awa e Ngati Porou iwi. É uma professora.


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