domingo, 15 de fevereiro de 2026

ÉTICA, MORAL E RESPONSABILIDADE DO CRIADOR


 

FRANKENSTEIN: OU O PROMETEU MODERNO

MARY SHELLEY

ZAHAR - 2020

312 páginas

Fiquei profundamente impressionada com a história desse ser criado por um humano que se arroga o lugar de criador da vida. No entanto, não desejo abordar o livro por um viés religioso.

A obra nos conduz a uma questão antiga e sempre atual: a fronteira entre o bem e o mal. Ao mesmo tempo, permite uma leitura surpreendentemente contemporânea, sobretudo quando pensamos nas dinâmicas do mundo atual e nas redes sociais.

Victor Frankenstein deseja vencer a morte, mas também busca a glória pessoal, a perpetuação de seu nome por meio de uma criação inédita. Para isso, cria um ser humano e lhe dá vida. No instante em que sua obra se concretiza, ele foge, apavorado com o que fez, abandonando a criatura à própria sorte. Lançado ao mundo sem amparo, o ser criado precisa aprender sozinho a sobreviver.

Inicialmente, a criatura é boa e generosa. Ela deseja companhia, afeto, reconhecimento. No entanto, encontra apenas rejeição, medo e violência. Mesmo após salvar uma criança de um afogamento, é atacada e expulsa. A sucessão de recusas e agressões transforma sua dor em ressentimento e, depois, em desejo de vingança contra aquele que lhe deu a vida e se recusou a assumir qualquer responsabilidade por ela.

Enquanto isso, Victor retoma sua vida como se nada tivesse ocorrido. Para atingi-lo, a criatura passa a cometer crimes, e são inocentes que pagam o preço. A questão central do livro é, portanto, ética e moral: qual é a responsabilidade de quem cria? Até que ponto o criador pode se eximir das consequências de sua obra?

Mary Shelley constrói uma relação de dependência e escravidão entre criador e criatura. Ao trazer essa reflexão para o presente, é inevitável pensar na nossa própria escravidão às tecnologias e às redes sociais — criações humanas que escaparam ao controle e passaram a moldar comportamentos, afetos e violências. Frankenstein continua atual justamente porque nos obriga a perguntar não apenas o que criamos, mas o que fazemos com aquilo que criamos.


Mary Shelley nasceu em Londres, em 1797 e faleceu na mesma localidade em 1851. Foi uma escritora britânica. 


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