FRANKENSTEIN: OU O PROMETEU MODERNO
MARY SHELLEY
ZAHAR - 2020
312 páginas
Fiquei profundamente impressionada com a
história desse ser criado por um humano que se arroga o lugar de criador da
vida. No entanto, não desejo abordar o livro por um viés religioso.
A obra nos conduz a uma questão antiga e
sempre atual: a fronteira entre o bem e o mal. Ao mesmo tempo, permite uma
leitura surpreendentemente contemporânea, sobretudo quando pensamos nas
dinâmicas do mundo atual e nas redes sociais.
Victor Frankenstein deseja vencer a morte, mas
também busca a glória pessoal, a perpetuação de seu nome por meio de uma
criação inédita. Para isso, cria um ser humano e lhe dá vida. No instante em
que sua obra se concretiza, ele foge, apavorado com o que fez, abandonando a
criatura à própria sorte. Lançado ao mundo sem amparo, o ser criado precisa
aprender sozinho a sobreviver.
Inicialmente, a criatura é boa e generosa. Ela
deseja companhia, afeto, reconhecimento. No entanto, encontra apenas rejeição,
medo e violência. Mesmo após salvar uma criança de um afogamento, é atacada e
expulsa. A sucessão de recusas e agressões transforma sua dor em ressentimento
e, depois, em desejo de vingança contra aquele que lhe deu a vida e se recusou
a assumir qualquer responsabilidade por ela.
Enquanto isso, Victor retoma sua vida como se
nada tivesse ocorrido. Para atingi-lo, a criatura passa a cometer crimes, e são
inocentes que pagam o preço. A questão central do livro é, portanto, ética e
moral: qual é a responsabilidade de quem cria? Até que ponto o criador pode se
eximir das consequências de sua obra?
Mary Shelley constrói uma relação de
dependência e escravidão entre criador e criatura. Ao trazer essa reflexão para
o presente, é inevitável pensar na nossa própria escravidão às tecnologias e às
redes sociais — criações humanas que escaparam ao controle e passaram a moldar
comportamentos, afetos e violências. Frankenstein continua atual
justamente porque nos obriga a perguntar não apenas o que criamos, mas o que
fazemos com aquilo que criamos.
Mary Shelley nasceu em
Londres, em 1797 e faleceu na mesma localidade em 1851. Foi uma escritora
britânica.


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