Percorrendo caminhos com mulheres líderes quilombolas
CONTRACORRENTE – 1ª ED. – 2022
120 páginas
Este livro, resultado da
pesquisa realizada pela autora em duas comunidades quilombolas situadas no
estado de Santa Catarina, foi essencial para que eu percebesse que a noção de cuidado, tal como pensada por mulheres
brancas, difere, e muito, daquela vivida por mulheres negras, quilombolas,
faveladas e até mesmo por mulheres negras nos Estados Unidos.
Aqui, o foco recai sobre as
mulheres quilombolas e sobre como elas compreendem o cuidado. A primeira
diferença marcante é que o trabalho doméstico realizado nas casas de mulheres
que as remuneram por esse serviço não é considerado, por elas, como cuidado. A
esse trabalho elas dão outro nome: servir.
O cuidado, para essas mulheres,
é aquilo que realizam em suas próprias casas, com seus filhos e no interior da
comunidade. A alegria que sentem quando conseguem deixar o trabalho remunerado,
geralmente mal pago e exaustivo, para dedicar-se ao cuidado do próprio lar é
imensa. Há prazer e afeto nesse fazer, o que difere profundamente da
experiência de muitas mulheres que realizam o trabalho doméstico por obrigação,
dever ou por não haver outra pessoa que o faça.
Cozinhar, limpar, cuidar dos
próprios filhos, dos filhos das vizinhas e dos idosos da comunidade constitui
um trabalho de cuidado que, nesse contexto, não é desvalorizado, tampouco pelos
homens. Pelo contrário, trata-se de uma atividade reconhecida e respeitada. O
aspecto mais interessante é que são justamente essas mulheres cuidadoras que
acabam assumindo posições de liderança. Elas se tornam lideranças comunitárias,
responsáveis por resolver questões políticas, participar de reuniões com a
prefeitura, lutar pelo reconhecimento do território e reivindicar melhores
condições de trabalho e de vida para toda a comunidade.
Nathalia Dothiling é mestra em antropologia social.


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