quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O COTIDIANO COMO ESPAÇO DA VIOLÊNCIA RACIAL


 

MEMÓRIAS DA PLANTAÇÃO: Episódios de racismo cotidiano

GRADA KILOMBA

COBOGÓ – 1ª ED. – 2019

249 páginas

Grada Kilomba nasceu em Lisboa e realizou seu doutorado em Berlim. Memórias da Plantação é fruto direto dessa pesquisa acadêmica, mas está longe de se limitar a um texto universitário: trata-se de uma obra que articula teoria, experiência, escuta e denúncia, rompendo com as formas tradicionais de produção do conhecimento.

Logo no início, Kilomba relata os inúmeros obstáculos enfrentados ao chegar à Alemanha para se inscrever no doutorado. Os entraves burocráticos, as exigências excessivas e os constrangimentos sucessivos não aparecem como coincidências, mas como estratégias veladas de exclusão. Ela era a única mulher negra de sua turma — na verdade, a única pessoa negra — e essa solidão racial atravessa toda a narrativa.

Para desenvolver sua pesquisa, Kilomba entrevista mulheres negras, e o livro se estrutura sobretudo a partir do relato de duas delas. São histórias de racismo cotidiano, marcado não por grandes explosões de violência explícita, mas por gestos, palavras, silêncios e “normalidades” que tentam se apresentar como inofensivas. Justamente por isso, são tão devastadoras.

Uma das entrevistadas tem mãe branca, que frequentemente ameniza ou relativiza os episódios de racismo vividos pela filha. Esse ponto é crucial: o apagamento da violência, quando vem de quem deveria proteger, aprofunda o trauma. Aos poucos, o livro revela como essas experiências repetidas produzem marcas psíquicas profundas, ainda que socialmente desautorizadas como sofrimento legítimo.

O trecho em que Kilomba aborda diretamente o trauma é um dos pontos mais fortes da obra. A conscientização de ser negra em uma sociedade estruturada pela branquitude aparece como um processo doloroso, mas também político. Kilomba desmonta a suposta normalidade do racismo e explicita como ele se reproduz justamente por não ser nomeado.

Nesse movimento, ela também dirige uma crítica incisiva ao feminismo ocidental, que frequentemente se mostra incapaz de lidar com o racismo de forma estrutural. O livro evidencia como o racismo é genderizado e como mulheres negras são sistematicamente excluídas das narrativas feministas hegemônicas, mesmo quando o discurso é de igualdade.

Um dos aportes teóricos mais importantes do livro é a análise do processo de descolonização do sujeito branco racista, articulado por meio dos mecanismos do ego. Kilomba descreve uma sequência recorrente: primeiro, a negação (“não somos racistas”); depois, a culpa, que tenta justificar ou suavizar o racismo; em seguida, a vergonha, marcada pelo olhar do outro; o reconhecimento da própria branquitude e do racismo estrutural; e, finalmente, a reparação — entendida não como gesto simbólico, mas como compromisso ativo com a transformação.

Memórias da Plantação é um livro necessário, perturbador e profundamente político. Ele nos obriga a abandonar o conforto da neutralidade e a reconhecer que o racismo não é um desvio da norma: ele é a própria norma, enquanto não for enfrentado.


Grada Kilomba nasceu em Lisboa, Portugal, em 1968. É psicóloga, teórica e artista interdisciplinar. 


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