MEMÓRIAS DA PLANTAÇÃO: Episódios de racismo cotidiano
COBOGÓ – 1ª ED. – 2019
249 páginas
Grada Kilomba nasceu em Lisboa e
realizou seu doutorado em Berlim. Memórias da Plantação
é fruto direto dessa pesquisa acadêmica, mas está longe de se limitar a um
texto universitário: trata-se de uma obra que articula teoria, experiência,
escuta e denúncia, rompendo com as formas tradicionais de produção do
conhecimento.
Logo no início, Kilomba relata
os inúmeros obstáculos enfrentados ao chegar à Alemanha para se inscrever no
doutorado. Os entraves burocráticos, as exigências excessivas e os
constrangimentos sucessivos não aparecem como coincidências, mas como estratégias
veladas de exclusão. Ela era a única mulher negra de sua turma — na verdade, a
única pessoa negra — e essa solidão racial atravessa toda a narrativa.
Para desenvolver sua pesquisa,
Kilomba entrevista mulheres negras, e o livro se estrutura sobretudo a partir
do relato de duas delas. São histórias de racismo cotidiano, marcado não por
grandes explosões de violência explícita, mas por gestos, palavras, silêncios e
“normalidades” que tentam se apresentar como inofensivas. Justamente por isso,
são tão devastadoras.
Uma das entrevistadas tem mãe
branca, que frequentemente ameniza ou relativiza os episódios de racismo
vividos pela filha. Esse ponto é crucial: o apagamento da violência, quando vem
de quem deveria proteger, aprofunda o trauma. Aos poucos, o livro revela como
essas experiências repetidas produzem marcas psíquicas profundas, ainda que
socialmente desautorizadas como sofrimento legítimo.
O trecho em que Kilomba aborda
diretamente o trauma é um dos pontos mais fortes da obra. A conscientização de
ser negra em uma sociedade estruturada pela branquitude aparece como um
processo doloroso, mas também político. Kilomba desmonta a suposta normalidade
do racismo e explicita como ele se reproduz justamente por não ser nomeado.
Nesse movimento, ela também
dirige uma crítica incisiva ao feminismo ocidental, que frequentemente se
mostra incapaz de lidar com o racismo de forma estrutural. O livro evidencia
como o racismo é genderizado e como mulheres negras são sistematicamente excluídas
das narrativas feministas hegemônicas, mesmo quando o discurso é de igualdade.
Um dos aportes teóricos mais
importantes do livro é a análise do processo de descolonização do sujeito
branco racista, articulado por meio dos mecanismos do ego. Kilomba descreve uma
sequência recorrente: primeiro, a negação (“não somos racistas”);
depois, a culpa, que tenta justificar ou suavizar o racismo; em seguida, a
vergonha, marcada pelo olhar do outro; o reconhecimento da própria branquitude
e do racismo estrutural; e, finalmente, a reparação — entendida não como gesto
simbólico, mas como compromisso ativo com a transformação.
Memórias da Plantação
é um livro necessário, perturbador e profundamente político. Ele nos obriga a
abandonar o conforto da neutralidade e a reconhecer que o racismo não é um
desvio da norma: ele é a própria norma, enquanto não for enfrentado.
Grada
Kilomba nasceu em Lisboa, Portugal, em 1968. É psicóloga, teórica e artista
interdisciplinar.


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