À SOMBRA DO MEU IRMÃO
As mascas do nazismo e do pós-guerra na história de uma
família alemã
UWE TIMM
DUBLINENSE – 1ª ED. - 2014
Durante a Segunda Guerra
Mundial, Uwe Timm
era apenas uma criança. O irmão mais velho, ao contrário, alistou-se na SS e morreu jovem no
front. No pós-guerra, esse irmão ausente transforma-se no ídolo silencioso da
família — um herói congelado no tempo, protegido pela morte e pela recusa
coletiva de olhar para o que o nazismo realmente foi.
Já adulto, Timm sente a
necessidade de compreender. Não para absolver, mas para entender como isso foi possível. Ele parte
então para uma investigação íntima: relê obsessivamente o diário do irmão,
revisita cartas enviadas do front na Ucrânia, busca indícios de humanidade,
dúvida, culpa. Não encontra. O que emerge é uma normalidade perturbadora, uma
ausência quase total de empatia pelo sofrimento alheio.
Um dos momentos mais chocantes
do livro está no contraste entre dois relatos. Em uma carta, já no final da
guerra, o irmão se diz horrorizado com o bombardeio de Hamburgo pelos aliados —
um crime contra civis, mulheres, crianças e idosos. Em outra passagem, descreve
com orgulho a destruição dos fornos de uma aldeia ucraniana: os tijolos seriam
usados para permitir a passagem dos tanques na lama. Não há qualquer reflexão
sobre o que isso significaria para a população local: a perda do meio de
cozinhar, de se aquecer no inverno rigoroso, a morte provável de idosos,
mulheres e crianças. Para Timm, essa assimetria moral é devastadora: quando a violência atinge “os nossos”, é crime; quando
atinge “os outros”, é feito de guerra.
O livro inteiro é atravessado
por essa busca dolorosa de compreensão. Como pessoas comuns, capazes de afeto
na vida cotidiana, podem perder completamente a capacidade de reconhecer o
outro como humano? Como a guerra produz essa anestesia moral? E, talvez mais
inquietante: como o pós-guerra permitiu que tantas famílias alemãs se
colocassem apenas como vítimas, desviando o olhar dos crimes cometidos em seu
nome?
Há também uma dimensão íntima e
familiar profunda. Por que esse irmão mais velho permaneceu como ideal do pai,
enquanto o caçula, que não matou ninguém, que era apenas uma criança durante o
regime nazista, jamais ocupou o mesmo lugar? A pergunta atravessa o texto sem
nunca se resolver plenamente, porque o que está em jogo não é apenas uma
rivalidade fraterna, mas o peso simbólico do silêncio, da negação e da herança
moral não elaborada.
À Sombra do Meu Irmão
é um livro incômodo e necessário. Ele mostra como é fácil não querer ver, não
querer saber, não reconhecer os próprios erros — e ainda transferir a culpa
para os outros. Em tempos de radicalizações e revisionismos, a leitura se impõe
como um alerta: a barbárie não nasce apenas de monstros, mas de pessoas comuns
que aceitam calar. E esquecer que quem iniciou a guerra foi Hitler e que o esquecimento nunca é neutro.
Uwe Timm nasceu em Bad Kreuznach, Alemanha, em 1940. É um
escritor alemão


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