sábado, 14 de fevereiro de 2026

MEMÓRIA, SILÊNCIO E HERANÇA MORAL NO PÓS-GUERRA ALEMÃO

 


À SOMBRA DO MEU IRMÃO

As mascas do nazismo e do pós-guerra na história de uma família alemã

UWE TIMM

DUBLINENSE – 1ª ED. - 2014

Durante a Segunda Guerra Mundial, Uwe Timm era apenas uma criança. O irmão mais velho, ao contrário, alistou-se na SS e morreu jovem no front. No pós-guerra, esse irmão ausente transforma-se no ídolo silencioso da família — um herói congelado no tempo, protegido pela morte e pela recusa coletiva de olhar para o que o nazismo realmente foi.

Já adulto, Timm sente a necessidade de compreender. Não para absolver, mas para entender como isso foi possível. Ele parte então para uma investigação íntima: relê obsessivamente o diário do irmão, revisita cartas enviadas do front na Ucrânia, busca indícios de humanidade, dúvida, culpa. Não encontra. O que emerge é uma normalidade perturbadora, uma ausência quase total de empatia pelo sofrimento alheio.

Um dos momentos mais chocantes do livro está no contraste entre dois relatos. Em uma carta, já no final da guerra, o irmão se diz horrorizado com o bombardeio de Hamburgo pelos aliados — um crime contra civis, mulheres, crianças e idosos. Em outra passagem, descreve com orgulho a destruição dos fornos de uma aldeia ucraniana: os tijolos seriam usados para permitir a passagem dos tanques na lama. Não há qualquer reflexão sobre o que isso significaria para a população local: a perda do meio de cozinhar, de se aquecer no inverno rigoroso, a morte provável de idosos, mulheres e crianças. Para Timm, essa assimetria moral é devastadora: quando a violência atinge “os nossos”, é crime; quando atinge “os outros”, é feito de guerra.

O livro inteiro é atravessado por essa busca dolorosa de compreensão. Como pessoas comuns, capazes de afeto na vida cotidiana, podem perder completamente a capacidade de reconhecer o outro como humano? Como a guerra produz essa anestesia moral? E, talvez mais inquietante: como o pós-guerra permitiu que tantas famílias alemãs se colocassem apenas como vítimas, desviando o olhar dos crimes cometidos em seu nome?

Há também uma dimensão íntima e familiar profunda. Por que esse irmão mais velho permaneceu como ideal do pai, enquanto o caçula, que não matou ninguém, que era apenas uma criança durante o regime nazista, jamais ocupou o mesmo lugar? A pergunta atravessa o texto sem nunca se resolver plenamente, porque o que está em jogo não é apenas uma rivalidade fraterna, mas o peso simbólico do silêncio, da negação e da herança moral não elaborada.

À Sombra do Meu Irmão é um livro incômodo e necessário. Ele mostra como é fácil não querer ver, não querer saber, não reconhecer os próprios erros — e ainda transferir a culpa para os outros. Em tempos de radicalizações e revisionismos, a leitura se impõe como um alerta: a barbárie não nasce apenas de monstros, mas de pessoas comuns que aceitam calar. E esquecer que quem iniciou a guerra foi Hitler e que o esquecimento nunca é neutro.


Uwe Timm nasceu em Bad Kreuznach, Alemanha, em 1940. É um escritor alemão


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