quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A VIOLÊNCIA FRIA DO PODER E O SILENCIAMENTO FEMININO

 

SÃO BERNARDO

GRACILIANO RAMOS

RECORD – 109ª ED. – 2019

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


São Bernardo é um romance que permanece na memória não pelos acontecimentos espetaculares, mas pela atmosfera de secura que atravessa tudo: a linguagem, as relações, os afetos. Lido ainda na juventude, o que mais me marcou foi a situação da mulher de Paulo Honório: a maneira como ela é tratada com frieza, desconfiança e progressivo apagamento, num ambiente onde o poder masculino se exerce como posse.

Paulo Honório é um personagem árido, endurecido pela ambição e pela lógica da propriedade. Tudo para ele é cálculo, domínio, resultado. Essa forma de estar no mundo se estende à relação conjugal: a mulher não é parceira, mas parte do patrimônio, algo que deve obedecer, se ajustar, permanecer silencioso. O amor, se existe, aparece deformado pela incapacidade de lidar com o outro como alteridade.

A violência em São Bernardo não é estridente. Ela se manifesta no controle, na vigilância, no ciúme paranoico, na redução da mulher a um objeto suspeito. A aridez do personagem masculino é também emocional: Paulo Honório não sabe escutar, não sabe compartilhar, não sabe amar sem dominar. E é justamente essa incapacidade que conduz à destruição do vínculo e à tragédia.

A figura da esposa — intelectual, sensível, deslocada naquele universo — funciona como contraste absoluto. Ela representa tudo o que Paulo Honório não compreende e não tolera: pensamento, dúvida, palavra, autonomia. Seu sofrimento não é apenas individual, mas estrutural: é o sofrimento de uma mulher inserida em um mundo moldado por homens para homens, onde não há espaço para fragilidade, reflexão ou dissenso.

Reler São Bernardo hoje é perceber o quanto Graciliano Ramos constrói uma crítica profunda às formas masculinas de poder. O romance não absolve seu narrador. Ao contrário, deixa exposta a pobreza afetiva de um homem que conquistou tudo, menos a capacidade de se relacionar sem destruir.

Talvez seja isso que torna o livro tão incômodo e tão atual: ele mostra que a violência não está apenas nos gestos brutais, mas também, e sobretudo, na frieza cotidiana, na lógica da posse e no silenciamento sistemático das mulheres.

Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 1892 e faleceu no Rio de Janeiro em 1953. Foi um escritor, jornalista, político e memorialista brasileiro. 




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