SÃO BERNARDO
GRACILIANO RAMOS
RECORD – 109ª ED. – 2019
LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE
São Bernardo é um romance que permanece
na memória não pelos acontecimentos espetaculares, mas pela atmosfera de secura
que atravessa tudo: a linguagem, as relações, os afetos. Lido ainda na
juventude, o que mais me marcou foi a situação da mulher de Paulo Honório: a
maneira como ela é tratada com frieza, desconfiança e progressivo apagamento,
num ambiente onde o poder masculino se exerce como posse.
Paulo Honório é um personagem árido,
endurecido pela ambição e pela lógica da propriedade. Tudo para ele é cálculo,
domínio, resultado. Essa forma de estar no mundo se estende à relação conjugal:
a mulher não é parceira, mas parte do patrimônio, algo que deve obedecer, se
ajustar, permanecer silencioso. O amor, se existe, aparece deformado pela
incapacidade de lidar com o outro como alteridade.
A violência em São Bernardo não é
estridente. Ela se manifesta no controle, na vigilância, no ciúme paranoico, na
redução da mulher a um objeto suspeito. A aridez do personagem masculino é
também emocional: Paulo Honório não sabe escutar, não sabe compartilhar, não
sabe amar sem dominar. E é justamente essa incapacidade que conduz à destruição
do vínculo e à tragédia.
A figura da esposa — intelectual, sensível,
deslocada naquele universo — funciona como contraste absoluto. Ela representa
tudo o que Paulo Honório não compreende e não tolera: pensamento, dúvida,
palavra, autonomia. Seu sofrimento não é apenas individual, mas estrutural: é o
sofrimento de uma mulher inserida em um mundo moldado por homens para homens,
onde não há espaço para fragilidade, reflexão ou dissenso.
Reler São Bernardo hoje é perceber o
quanto Graciliano Ramos constrói uma crítica profunda às formas masculinas de
poder. O romance não absolve seu narrador. Ao contrário, deixa exposta a
pobreza afetiva de um homem que conquistou tudo, menos a capacidade de se
relacionar sem destruir.
Talvez seja isso que torna o livro tão
incômodo e tão atual: ele mostra que a violência não está apenas nos gestos
brutais, mas também, e sobretudo, na frieza cotidiana, na lógica da posse e no
silenciamento sistemático das mulheres.
Graciliano Ramos nasceu em
Quebrangulo, Alagoas, em 1892 e faleceu no Rio de Janeiro em 1953. Foi um
escritor, jornalista, político e memorialista brasileiro.


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