MATERNIDADE TEM COR?
Narrativas de mulheres negras sobre maternidade
LUARA PAULA VIEIRA BAIA
APPRIS – 1ª ED. - 2021
Maternidade tem cor?
apresenta a pesquisa de Luara Paula Vieira Baia sobre a experiência da
maternidade vivida por mulheres negras. É um livro necessário e cuja leitura
recomendo fortemente.
Em uma sociedade que ainda
sacraliza a maternidade, como se ela fosse a realização máxima de toda mulher,
pouco se fala sobre os percalços, ambivalências e sofrimentos que ela pode
trazer. Questionar essa idealização já é, muitas vezes, visto como heresia. No
entanto, quando o foco recai sobre a maternidade das mulheres negras, a questão
se torna ainda mais profunda, séria e dolorosa.
Mesmo diante do amor intenso por
seus filhos e filhas, essas mulheres vivem a maternidade sob a constante tensão
de criar crianças negras em uma sociedade estruturalmente racista. Há muito
pouco escrito sobre a maternidade das mulheres negras; o que prevalece é a
ideia de uma maternidade universal, como se todas as mulheres maternas vivessem
a mesma experiência.
Mas o que significa ser mãe
quando se é uma mulher negra? Durante o período da escravização, essas mulheres
pariram filhos que eram tratados como propriedade, destinados a ampliar a mão
de obra escravizada. Seus filhos eram frequentemente arrancados de seus braços.
Elas não eram reconhecidas como mães, mas reduzidas a corpos reprodutores, a
“fêmeas” que produziam trabalhadores.
E hoje? O que significa ser mãe
quando se sabe que seu filho é um alvo vivo da violência policial? As
estatísticas sobre a morte de jovens negros confirmam esse medo cotidiano. Ou
quando uma filha precisa ser constantemente fortalecida em sua autoestima para
sobreviver ao racismo e à discriminação? Essas mães desenvolvem estratégias de
proteção, são pragmáticas na defesa de seus filhos e no ensino de como
sobreviver em uma sociedade hostil. São preocupações que mães brancas, em
geral, não enfrentam, somadas, ainda, às angústias comuns a toda maternidade.
O livro mostra que essa
realidade não se restringe às periferias, favelas ou comunidades, onde a
violência é ainda mais explícita. Trata-se também de mulheres negras de classe
média, com nível superior e relativa estabilidade financeira. Como mulher
branca e mãe, não posso imaginar plenamente o que significa ser uma mãe negra.
Mas posso, sim, escutar, sentir e reconhecer a dor, o medo e a permanência de
uma condição social que insiste em negar a essas mulheres o direito pleno de
serem mães.
Nas narrativas que a autora
reúne, emerge a percepção de uma maternidade constantemente ameaçada, vigiada e
interrompida. Ainda que haja alegrias, vínculos profundos de amor e a
maternidade se constitua como um ato de resistência, o livro não romantiza essa
experiência. Algumas mães, inclusive, negam a existência do racismo — talvez
como estratégia de sobrevivência.
Trata-se de uma obra impactante,
que desestabiliza certezas, rompe com a noção de maternidade universal e nos
obriga a pensar sobre raça, gênero, cuidado e violência estrutural no Brasil.
Luara Paula Vieira Baia
possui licenciatura e bacharelado em Ciências Sociais.

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