quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

DESEJO, INCONFORMISMO E O CASTIGO DA TRANSGRESSÃO

 


MADAME BOVARY

GUSTAVE FLAUBERT

NOVA ALEXANDRIA – 3ª ED. - 2007

Madame Bovary é um romance que provoca leituras contraditórias — e talvez por isso continue tão atual. O que mais me chamou a atenção foi a figura de uma mulher que não se conforma com a vida que lhe foi destinada. Emma Bovary recusa a mediocridade do casamento, a monotonia do cotidiano, o horizonte estreito da pequena cidade. Ela quer mais — e quer intensamente.

Emma não é uma mulher acomodada. Ao contrário: ela age, deseja, se arrisca. Busca no amor, no consumo, na fantasia romântica e nas relações extraconjugais uma saída para uma existência que lhe parece sufocante. Sua insatisfação não é passiva; ela tenta, erra, insiste. Nesse sentido, Emma é profundamente moderna: uma mulher que se recusa a aceitar o destino como algo natural.

Mas Flaubert não permite que essa recusa permaneça sem punição. O romance inteiro parece caminhar para o castigo da personagem — um castigo moral, social e físico. Emma paga caro por desejar demais, por sair do lugar, por não aceitar o papel que lhe foi reservado. A narrativa, fria e precisa, observa sua queda quase como um experimento: o que acontece quando uma mulher quer mais do que lhe é permitido?

Essa ambiguidade é central. Emma é ao mesmo tempo vítima e agente. Ela sofre sob as restrições impostas às mulheres de seu tempo, mas também se ilude, se engana, consome sem medida, projeta na fantasia literária uma saída que a realidade não oferece. Flaubert parece oscilar entre a crítica à sociedade provinciana e a necessidade de punir sua personagem por transgredir suas normas.

Talvez seja justamente aí que Madame Bovary se torne tão potente. O romance não oferece conforto. Ele expõe o impasse feminino do século XIX: entre a submissão silenciosa e a transgressão castigada. Emma escolhe transgredir, e por isso paga com a própria vida.

Reler Madame Bovary hoje é perceber que a pergunta que o livro deixa em aberto permanece atual: Até que ponto o desejo feminino pode existir sem ser patologizado, ridicularizado ou punido? Emma incomoda porque ela não se arrepende de desejar. E talvez esse seja seu maior crime.

Gustave Flaubert nasceu em Rouen, França, em 1821 e faleceu na mesma cidade em 1880. Foi um escritor francês. 




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