MADAME BOVARY
GUSTAVE FLAUBERT
NOVA ALEXANDRIA – 3ª ED. - 2007
Madame Bovary é um
romance que provoca leituras contraditórias — e talvez por isso continue tão
atual. O que mais me chamou a atenção foi a figura de uma mulher que não se
conforma com a vida que lhe foi destinada. Emma Bovary recusa a mediocridade do
casamento, a monotonia do cotidiano, o horizonte estreito da pequena cidade.
Ela quer mais — e quer intensamente.
Emma não é uma mulher acomodada. Ao contrário:
ela age, deseja, se arrisca. Busca no amor, no consumo, na fantasia romântica e
nas relações extraconjugais uma saída para uma existência que lhe parece
sufocante. Sua insatisfação não é passiva; ela tenta, erra, insiste. Nesse
sentido, Emma é profundamente moderna: uma mulher que se recusa a aceitar o
destino como algo natural.
Mas Flaubert não permite que essa recusa
permaneça sem punição. O romance inteiro parece caminhar para o castigo da
personagem — um castigo moral, social e físico. Emma paga caro por desejar
demais, por sair do lugar, por não aceitar o papel que lhe foi reservado. A
narrativa, fria e precisa, observa sua queda quase como um experimento: o que
acontece quando uma mulher quer mais do que lhe é permitido?
Essa ambiguidade é central. Emma é ao mesmo
tempo vítima e agente. Ela sofre sob as restrições impostas às mulheres de seu
tempo, mas também se ilude, se engana, consome sem medida, projeta na fantasia
literária uma saída que a realidade não oferece. Flaubert parece oscilar entre
a crítica à sociedade provinciana e a necessidade de punir sua personagem por
transgredir suas normas.
Talvez seja justamente aí que Madame Bovary
se torne tão potente. O romance não oferece conforto. Ele expõe o impasse
feminino do século XIX: entre a submissão silenciosa e a transgressão
castigada. Emma escolhe transgredir, e por isso paga com a própria vida.
Reler Madame Bovary hoje é perceber que
a pergunta que o livro deixa em aberto permanece atual: Até que ponto o desejo
feminino pode existir sem ser patologizado, ridicularizado ou punido? Emma
incomoda porque ela não se arrepende de desejar. E talvez esse seja seu maior
crime.
Gustave Flaubert nasceu em Rouen, França, em 1821 e faleceu
na mesma cidade em 1880. Foi um escritor francês.


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