LÉLIA GONZALEZ – RETRATOS DO BRASIL NEGRO
ALEX RATTS – FLÁVIA M. RIOS
SELO NEGRO EDIÇÕES – 1ª ED. – 2010
176 páginas
Os autores apresentam neste
livro não uma biografia nos moldes tradicionais, centrada na cronologia da vida
privada, mas sobretudo o percurso intelectual, político e militante de Lélia Gonzalez. Embora
aspectos de sua vida pessoal apareçam, o foco está na construção de seu
pensamento e em sua atuação decisiva no enfrentamento ao racismo e ao sexismo
no Brasil.
Lélia nasce em uma família muito
pobre, com muitos filhos, em Belo Horizonte. A possibilidade de mudança para o
Rio de Janeiro surge graças a um dos irmãos, jogador de futebol, que consegue
trazer a família. É no Rio que a jovem Lélia estuda, trabalha e começa,
gradualmente, a perceber o racismo estrutural que organiza a sociedade
brasileira, o sexismo e as profundas desigualdades sociais.
Num primeiro momento, no
entanto, ela se submete a essas normas. Forma-se professora, alisa o cabelo,
adapta-se às expectativas sociais impostas às mulheres negras. A virada ocorre
quando seu marido, um homem branco, chama sua atenção para o fato de que ela
ainda não havia analisado criticamente a própria negritude. Esse questionamento
marca o início de um processo profundo de conscientização e elaboração teórica.
Lélia Gonzalez se tornaria uma
das maiores intelectuais do pensamento negro no Brasil. Criou conceitos
fundamentais como amefricanidade
e pretoguês,
antecipando debates que hoje reconhecemos como decoloniais, embora o termo
ainda não estivesse em circulação. Seu pensamento articula raça, gênero e
classe de forma pioneira, denunciando os limites do feminismo branco e do
movimento negro quando ambos ignoram a especificidade da mulher negra.
Ser mulher e ser negra foi o
eixo central de sua luta. Lélia batalhou para que a questão da mulher negra
entrasse nas pautas políticas e acadêmicas, mas também para desmascarar o mito
da democracia racial em um país que construiu sua identidade nacional sobre o
apagamento do racismo. Sua obra permanece atual, incisiva e indispensável para
compreender o Brasil e suas desigualdades.
Alex Ratts nasceu em Fortaleza em 1964. É geógrafo e antropólogo.
Flávia M. Rios é doutora em Ciências Sociais.



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