sábado, 14 de fevereiro de 2026

QUANDO DIVERSIDADE NÃO BASTA: A URGÊNCIA DA INCLUSÃO REAL

 


IMPERFEITOS: um relato íntimo de como a inclusão e a diversidade podem transformar vidas e impactar o mercado de trabalho

JULIE GOLDCHMIT

MAQUINARIA EDITORIAL – 1ª ED. – 2022

Este livro é o relato da trajetória de Julie — uma jovem inteligente, capaz, dedicada e persistente. Costuma-se acrescentar a essa frase um “mas”: mas ela é autista. Esse “mas”, no entanto, revela mais sobre a sociedade do que sobre Julie. Ele denuncia a dificuldade coletiva de aceitar que pessoas são diferentes, inclusive aquelas consideradas “normais”. Tudo o que escapa ao padrão hegemônico tende a ser classificado como anormal, deficiente, doente ou problemático.

Julie teve algo fundamental: uma família que a acolheu sem vitimizá-la. Seus pais a protegeram quando necessário, mas sobretudo a incentivaram a seguir, a tentar, a não desistir, mesmo diante de obstáculos severos, da maldade humana e de crises intensas de ansiedade. Quando criança, ouviu de um médico que provavelmente nunca falaria nem andaria. Sua mãe simplesmente não aceitou esse veredicto e Julie falou, andou e construiu seu próprio caminho.

O período escolar foi particularmente difícil. As diferenças no ritmo de aprendizado e na forma de compreender o mundo a colocaram em constante tensão com um sistema educacional que, apesar do discurso de inclusão, raramente está preparado para lidar com a diversidade real. O bullying esteve presente, mas Julie conseguiu concluir o ensino médio. A faculdade, no entanto, foi descartada: um ambiente que exige autonomia plena e oferece pouca segurança não parecia, naquele momento, um espaço possível. A alternativa foi o mercado de trabalho.

É nesse ponto que o livro se torna especialmente incisivo. Julie relata, com clareza e honestidade, o abismo entre diversidade e inclusão. Muitas empresas afirmam valorizar a diversidade, mas não constroem condições reais para que pessoas diferentes permaneçam, cresçam e contribuam. Ela foi alvo da crueldade de uma chefe incapaz de compreender suas necessidades, mas também encontrou outra que a ensinou, a respeitou e reconheceu seu potencial.

Quando precisou deixar o emprego em um banco devido à mudança da sede, Julie enfrentou meses de busca por trabalho marcados pelo preconceito e pela incompreensão de recrutadores e departamentos de RH. A lógica das cotas — cumprir a exigência legal e encerrar o assunto — aparece como um dos grandes limites da inclusão contemporânea. Ainda assim, ela encontrou, finalmente, uma empresa que oferecia o que era essencial: estrutura, apoio, compreensão e uma verdadeira rede de acolhimento. Ali, pôde trabalhar de fato, contribuir, produzir, como sempre foi capaz de fazer.

Ao longo de sua trajetória, Julie encontrou pessoas generosas, amigas verdadeiras, mas também o que há de mais duro no preconceito humano. O livro intercala sua narrativa com apartes sobre legislações e reflexões a respeito de pessoas autistas e de pessoas com deficiências físicas e mentais, categorias que, muitas vezes, servem mais para limitar do que para compreender.

Imperfeitos nos lembra de algo fundamental: pessoas diferentes continuam sendo sujeitos de suas próprias vidas. São capazes de criar, trabalhar, estudar e produzir, desde que encontrem ambientes que não as violentem em nome da normalidade. Mais do que uma autobiografia, este é um livro que interpela o mercado de trabalho, as instituições e cada um de nós.


Julie Goldchmit é brasileira e assistente de marketing  


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