IMPERFEITOS: um relato íntimo de como a inclusão e a
diversidade podem transformar vidas e impactar o mercado de trabalho
JULIE GOLDCHMIT
MAQUINARIA EDITORIAL – 1ª ED. – 2022
Este livro é o relato da trajetória de Julie —
uma jovem inteligente, capaz, dedicada e persistente. Costuma-se acrescentar a
essa frase um “mas”: mas ela é autista. Esse “mas”, no entanto, revela
mais sobre a sociedade do que sobre Julie. Ele denuncia a dificuldade coletiva
de aceitar que pessoas são diferentes, inclusive aquelas consideradas
“normais”. Tudo o que escapa ao padrão hegemônico tende a ser classificado como
anormal, deficiente, doente ou problemático.
Julie teve algo fundamental: uma família que a
acolheu sem vitimizá-la. Seus pais a protegeram quando necessário, mas
sobretudo a incentivaram a seguir, a tentar, a não desistir, mesmo diante de
obstáculos severos, da maldade humana e de crises intensas de ansiedade. Quando
criança, ouviu de um médico que provavelmente nunca falaria nem andaria. Sua
mãe simplesmente não aceitou esse veredicto e Julie falou, andou e construiu
seu próprio caminho.
O período escolar foi particularmente difícil.
As diferenças no ritmo de aprendizado e na forma de compreender o mundo a
colocaram em constante tensão com um sistema educacional que, apesar do
discurso de inclusão, raramente está preparado para lidar com a diversidade
real. O bullying esteve presente, mas Julie conseguiu concluir o ensino médio.
A faculdade, no entanto, foi descartada: um ambiente que exige autonomia plena
e oferece pouca segurança não parecia, naquele momento, um espaço possível. A
alternativa foi o mercado de trabalho.
É nesse ponto que o livro se torna
especialmente incisivo. Julie relata, com clareza e honestidade, o abismo entre
diversidade e inclusão. Muitas empresas afirmam valorizar a diversidade, mas
não constroem condições reais para que pessoas diferentes permaneçam, cresçam e
contribuam. Ela foi alvo da crueldade de uma chefe incapaz de compreender suas
necessidades, mas também encontrou outra que a ensinou, a respeitou e
reconheceu seu potencial.
Quando precisou deixar o emprego em um banco
devido à mudança da sede, Julie enfrentou meses de busca por trabalho marcados
pelo preconceito e pela incompreensão de recrutadores e departamentos de RH. A
lógica das cotas — cumprir a exigência legal e encerrar o assunto — aparece
como um dos grandes limites da inclusão contemporânea. Ainda assim, ela
encontrou, finalmente, uma empresa que oferecia o que era essencial: estrutura,
apoio, compreensão e uma verdadeira rede de acolhimento. Ali, pôde trabalhar de
fato, contribuir, produzir, como sempre foi capaz de fazer.
Ao longo de sua trajetória, Julie encontrou
pessoas generosas, amigas verdadeiras, mas também o que há de mais duro no
preconceito humano. O livro intercala sua narrativa com apartes sobre
legislações e reflexões a respeito de pessoas autistas e de pessoas com
deficiências físicas e mentais, categorias que, muitas vezes, servem mais para
limitar do que para compreender.
Imperfeitos nos lembra de algo
fundamental: pessoas diferentes continuam sendo sujeitos de suas próprias
vidas. São capazes de criar, trabalhar, estudar e produzir, desde que encontrem
ambientes que não as violentem em nome da normalidade. Mais do que uma
autobiografia, este é um livro que interpela o mercado de trabalho, as
instituições e cada um de nós.
Julie Goldchmit é brasileira e assistente de marketing


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