CIRCE
Feiticeira. Bruxa. Entre o castigo dos deuses e o amor dos
homens
MADELINE MILLER
PLANETA MINOTAURO – 2ª ED. - 2020
368 páginas
Em Circe, Madeline Miller reconta a
mitologia grega a partir de uma perspectiva radicalmente deslocada: a da mulher
que, na tradição clássica, foi reduzida a feiticeira perigosa, obstáculo moral
ou punição divina. Aqui, Circe
ganha voz, tempo e densidade — do nascimento à maturidade, antes, durante e
depois dos acontecimentos narrados na Odisseia.
Filha do deus Hélio, Circe cresce marcada
pela rejeição. Não é bela como as deusas, nem poderosa como os deuses. Sua
diferença, no entanto, será justamente o que a salvará e a condenará. Ao descobrir a feitiçaria, ela
cruza um limite perigoso: preocupa Zeus
e é punida com o exílio em uma ilha isolada do mundo. Ali, quase esquecida,
recebe apenas visitas ocasionais de Hermes,
que lhe traz notícias do que acontece entre deuses e mortais.
O isolamento não a enfraquece,
mas a forma. Na solidão, Circe desenvolve suas magias, aprende a lidar com
plantas, venenos e encantamentos, e constrói uma autonomia que não lhe foi
permitida no Olimpo. Quando marinheiros chegam à ilha e, após comerem e
beberem, a violentam, ocorre uma virada decisiva: Circe passa a transformá-los
em porcos. O gesto, frequentemente lido como crueldade na tradição masculina,
aqui aparece como resposta à violência,
não como perversidade gratuita.
O mesmo acontece quando a
tripulação de Odisseu
chega à ilha. Advertido por Hermes, Odisseu consegue escapar do feitiço, e o
encontro entre os dois foge ao roteiro habitual. Eles se tornam amantes, mas
também algo mais raro: interlocutores. Circe devolve aos homens sua forma
humana e Odisseu segue viagem. No entanto, a narrativa não termina com a
partida do herói.
Circe fica grávida e dá à luz Telégono, a quem cria
sozinha na ilha. A maternidade aqui não é idealizada: o filho é difícil,
violento, marcado por uma força que o excede. Atena
deseja matá-lo, e Circe, pela primeira vez, enfrenta diretamente uma deusa
olímpica, protegendo o filho com um encantamento que nem Atena consegue
atravessar. A ilha torna-se não apenas refúgio, mas território soberano.
Quando Telégono cresce, decide
buscar o pai. Parte e retorna acompanhado de Penélope
e Telêmaco. A partir daí, a
narrativa se desloca novamente, abrindo espaço para novas alianças, afetos
inesperados e escolhas que escapam tanto ao destino trágico quanto à submissão.
Não é possível falar do final
sem revelar demais. Basta dizer que Circe não é
uma história sobre punição, mas sobre transformação.
Madeline Miller retira a feiticeira do lugar de monstro e a reinscreve como
mulher que aprende, erra, ama, protege, escolhe. Entre o castigo dos deuses e o
amor dos homens, Circe constrói algo mais raro: uma
vida própria.
Madeline Miller nasceu em Boston, Massachusetts, EUA, em
1978. É uma escritora estadunidense.

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