COMPLEXO DE VIRA-LATA: ANÁLISE DA HUMILHAÇÃO COLONIAL
MÁRCIA TIBURI
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 6ª ED. – 2021
AUDIOBOOK
NARRADOR: LARA CÓRDULA
EDITOR: AUDIBLE STUDIOS
No final de 2024, rendi-me aos
audiolivros, mas confesso que ainda não me acostumei completamente. Tenho uma
tendência à dispersão quando preciso ouvir algo que é lido por outra pessoa — o
que não acontece quando se trata de uma entrevista, um podcast ou uma palestra.
É o texto lido que me atrapalha: há um tom único, por vezes monocórdio, e eu me
perco. Por isso, gosto mais de contadores de histórias que incorporam
personagens, mudam vozes, ritmo e intensidade.
O primeiro audiolivro que ouvi
foi Complexo de Vira-Lata, de Márcia Tiburi. O termo,
como sabemos, não foi criado por ela, mas cunhado por Nelson Rodrigues. Tiburi
se apropria do conceito para fazer uma análise profunda do complexo de
inferioridade ligado à colonização do Brasil — algo que se torna interiorizado
e, muitas vezes, institucionalizado.
O livro me interessou
especialmente porque estamos vivendo um momento difícil, em que esse complexo
aparece de forma explícita em parte da população brasileira. Do episódio
envolvendo Elon Musk até a recente posse de Donald Trump, é impressionante
observar o grau de viralatismo de muitos. É como se o Brasil ainda fosse uma
colônia — agora dos Estados Unidos. A soberania do país é colocada de lado,
desconsiderada, como se leis e interesses de outro país pudessem vigorar aqui,
à semelhança do período em que o Reino de Portugal ditava as regras.
Houve um tempo em que a elite
brasileira louvava a França; depois, esse lugar foi ocupado pelos Estados
Unidos. Tudo o que é nacional passa a ser desprezado. Nesse contexto, é curioso
e revelador ver o filme Ainda Estou Aqui ser
assistido por milhões de brasileiros, talvez porque tenha feito sucesso no
exterior. Paulo Freire é admirado e seu método aplicado no mundo inteiro, menos
no Brasil.
Na academia, mesmo com o
reconhecimento do eurocentrismo, continua-se muitas vezes a contar a história
da filosofia em vez de fazer filosofia. O gesto crítico permanece incompleto.
Recentemente, descobri Maria
Martins — artista e curadora fundamental, até então desconhecida para mim,
apesar de sua enorme importância. A maior Bienal realizada no Brasil deve muito
a ela; o MAM do Rio de Janeiro também. Sempre fui admiradora de Louise
Bourgeois, por sua arte ligada ao inconsciente e à sexualidade, até perceber
que, antes dela, houve Maria Martins — ainda mais visceral, profundamente
ligada aos trópicos, à Amazônia e às lendas brasileiras.
Márcia Angelita Tiburi nasceu em Vacaria – RS, em 1970. É
filósofa, escritora, artista plástica e política.

.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário