APRENDIZADOS DA LUTA
Mulheres camponesas do Brasil e indígenas do México.
ISAURA ISABEL
CONTE
APPRIS – 1ª ED. -
2018
287 páginas
Aprendizados da Luta
é fruto de uma pesquisa de doutorado, mas está longe de ser um livro distante
ou hermético. Pelo contrário: ele nos conduz diretamente ao chão da luta
camponesa no sul do Brasil e
das mulheres indígenas no México,
aproximando contextos distintos e, ao mesmo tempo, revelando diferenças
fundamentais. No centro da análise estão as mulheres — aquelas que
historicamente sustentam a vida, mas raramente têm seu trabalho reconhecido
como tal.
Isaura
Isabel Conte mostra como são essas mulheres que assumem a linha
de frente na defesa da terra, do trabalho cotidiano, sempre desqualificado como
“ajuda”, e da sobrevivência de suas famílias. O principal adversário é o
agronegócio, essa engrenagem que tudo engole e nada devolve em termos de
justiça social ou alimentar.
Foi lendo este livro que passei
a compreender de forma mais clara como o agronegócio funciona de fato: não para
alimentar pessoas, mas para produzir commodities.
Quando produz alimentos, o faz à base de agrotóxicos, visando quantidade e
lucro, não qualidade ou saúde. O agronegócio aparece aqui como a atualização do
velho latifúndio, da monocultura, da lógica da Casa-Grande &
Senzala. Mudam os discursos, permanecem as estruturas. Os
explorados de hoje são camponeses e povos indígenas.
A autora analisa também a
tentativa sistemática de monopolização das sementes: sementes modificadas,
transgênicas, que visam eliminar as sementes crioulas e aprisionar o pequeno
agricultor a um sistema de dependência permanente. Mesmo aqueles que se associam
ao agronegócio tornam-se reféns de uma lógica que só reconhece o lucro. O
resultado é perverso: enquanto o agronegócio recebe incentivos e recursos
abundantes, a agricultura familiar e agroecológica permanece abandonada. Seus
produtos tornam-se mais caros, acessíveis sobretudo às classes mais altas,
enquanto os mais pobres consomem alimentos contaminados por agrotóxicos.
Quando penso que o Brasil voltou
a viver o que se chama, eufemisticamente, de “insegurança alimentar” até 2025,
e que para mim tem nome claro: fome,
o foco do agronegócio torna-se ainda mais evidente. Produz-se muito, exporta-se
muito, mas não se alimenta o próprio povo.
Um dos pontos mais potentes do
livro é a atenção dada à educação
e à formação de grupos de mulheres.
Esses espaços coletivos permitem que elas aprendam a falar, a ocupar a palavra,
a perder a inibição e a desconstruir a ideia profundamente enraizada de que não
podem — ou não devem — se manifestar. O machismo é forte e atravessa essas
comunidades, mas também é enfrentado coletivamente, na luta por reconhecimento
e respeito aos direitos das mulheres.
A produção feminina,
majoritariamente agroecológica, segue sendo invisibilizada e desqualificada
como “não produtiva”. No entanto, é justamente esse tipo de produção que
responde pela maior parte dos alimentos que chegam à mesa. Essa contradição
atravessa todo o livro e expõe a falácia do discurso hegemônico sobre
produtividade.
Aprendizados da Luta
valeu a leitura e mais do que isso: ensinou muito. É um livro que nos obriga a
repensar o que entendemos por desenvolvimento, trabalho, alimento e justiça. E,
sobretudo, a reconhecer que são as mulheres, mais uma vez, que sustentam a vida
onde o sistema insiste em produzir morte.
Isaura Isabel Conte é doutora em educação.

Nenhum comentário:
Postar um comentário