segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

CORPOS FEMININOS, TERRA E RESISTÊNCIA COLETIVA

 

APRENDIZADOS DA LUTA

Mulheres camponesas do Brasil e indígenas do México.

ISAURA ISABEL CONTE

APPRIS – 1ª ED. - 2018

287 páginas

Aprendizados da Luta é fruto de uma pesquisa de doutorado, mas está longe de ser um livro distante ou hermético. Pelo contrário: ele nos conduz diretamente ao chão da luta camponesa no sul do Brasil e das mulheres indígenas no México, aproximando contextos distintos e, ao mesmo tempo, revelando diferenças fundamentais. No centro da análise estão as mulheres — aquelas que historicamente sustentam a vida, mas raramente têm seu trabalho reconhecido como tal.

Isaura Isabel Conte mostra como são essas mulheres que assumem a linha de frente na defesa da terra, do trabalho cotidiano, sempre desqualificado como “ajuda”, e da sobrevivência de suas famílias. O principal adversário é o agronegócio, essa engrenagem que tudo engole e nada devolve em termos de justiça social ou alimentar.

Foi lendo este livro que passei a compreender de forma mais clara como o agronegócio funciona de fato: não para alimentar pessoas, mas para produzir commodities. Quando produz alimentos, o faz à base de agrotóxicos, visando quantidade e lucro, não qualidade ou saúde. O agronegócio aparece aqui como a atualização do velho latifúndio, da monocultura, da lógica da Casa-Grande & Senzala. Mudam os discursos, permanecem as estruturas. Os explorados de hoje são camponeses e povos indígenas.

A autora analisa também a tentativa sistemática de monopolização das sementes: sementes modificadas, transgênicas, que visam eliminar as sementes crioulas e aprisionar o pequeno agricultor a um sistema de dependência permanente. Mesmo aqueles que se associam ao agronegócio tornam-se reféns de uma lógica que só reconhece o lucro. O resultado é perverso: enquanto o agronegócio recebe incentivos e recursos abundantes, a agricultura familiar e agroecológica permanece abandonada. Seus produtos tornam-se mais caros, acessíveis sobretudo às classes mais altas, enquanto os mais pobres consomem alimentos contaminados por agrotóxicos.

Quando penso que o Brasil voltou a viver o que se chama, eufemisticamente, de “insegurança alimentar” até 2025, e que para mim tem nome claro: fome, o foco do agronegócio torna-se ainda mais evidente. Produz-se muito, exporta-se muito, mas não se alimenta o próprio povo.

Um dos pontos mais potentes do livro é a atenção dada à educação e à formação de grupos de mulheres. Esses espaços coletivos permitem que elas aprendam a falar, a ocupar a palavra, a perder a inibição e a desconstruir a ideia profundamente enraizada de que não podem — ou não devem — se manifestar. O machismo é forte e atravessa essas comunidades, mas também é enfrentado coletivamente, na luta por reconhecimento e respeito aos direitos das mulheres.

A produção feminina, majoritariamente agroecológica, segue sendo invisibilizada e desqualificada como “não produtiva”. No entanto, é justamente esse tipo de produção que responde pela maior parte dos alimentos que chegam à mesa. Essa contradição atravessa todo o livro e expõe a falácia do discurso hegemônico sobre produtividade.

Aprendizados da Luta valeu a leitura e mais do que isso: ensinou muito. É um livro que nos obriga a repensar o que entendemos por desenvolvimento, trabalho, alimento e justiça. E, sobretudo, a reconhecer que são as mulheres, mais uma vez, que sustentam a vida onde o sistema insiste em produzir morte.

Isaura Isabel Conte é doutora em educação.


Nenhum comentário:

Postar um comentário