NÃO-LUGARES: INTRODUÇÃO A UMA ANTROPOLOGIA DA
SUPERMORDENIDADE
MARC AUGÉ
PAPIRUS – 1994
112 páginas
Em Não-lugares,
Marc Augé propõe uma
reflexão antropológica sobre as transformações do espaço naquilo que ele chama
de supermodernidade. O autor parte da ideia de que a intensificação da
mobilidade, do consumo e da circulação de informações produziu espaços
radicalmente distintos daqueles tradicionalmente estudados pela antropologia
clássica, centrada em comunidades estáveis, identidades compartilhadas e
memórias coletivas.
Augé define como “não-lugares”
os espaços de passagem, transitórios e funcionais, como aeroportos, rodovias,
shoppings, hotéis, supermercados e estações de metrô. Diferentemente dos
“lugares antropológicos”, esses espaços não produzem identidade, não criam
vínculos duradouros nem se ancoram em uma história comum. Neles, o indivíduo
permanece anônimo, reduzido à condição de usuário, consumidor ou passageiro,
identificado apenas por documentos, cartões, bilhetes ou senhas.
O livro não afirma que os
não-lugares sejam necessariamente negativos, mas destaca seu caráter ambíguo.
Eles são produtos de uma modernidade que valoriza a eficiência, a rapidez e a
padronização, ao mesmo tempo em que enfraquece experiências de pertencimento e
de memória. Nos não-lugares, a comunicação ocorre sobretudo por meio de textos
normativos — placas, avisos, instruções — e não pela interação humana direta.
Trata-se de um espaço regulado, previsível e impessoal.
Augé também ressalta que lugar e
não-lugar não são categorias fixas ou absolutas. Um mesmo espaço pode ser
vivido como lugar por alguns e como não-lugar por outros, dependendo da
experiência subjetiva, do tempo de permanência e da relação estabelecida com
ele. Assim, a distinção funciona mais como uma ferramenta analítica do que como
uma classificação rígida da realidade.
Não-lugares
é uma obra breve, porém decisiva, que oferece uma chave de leitura para
compreender a vida contemporânea, marcada pelo deslocamento constante e pela
fragilização dos laços simbólicos. Ao deslocar o olhar antropológico para esses
espaços cotidianos e aparentemente banais, Marc Augé nos convida a refletir
sobre como habitamos o mundo atual e sobre o que se perde, e se transforma,
quando a experiência humana se organiza cada vez mais em territórios de
passagem.
Marc Augé nasceu em Poitiers, França, em 1935 e faleceu na
mesma localidade em 2023. Foi um etnólogo e antropólogo francês.


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