SEXO INVISÍVEL: o verdadeiro papel da mulher na pré-história
OLGA SOFFER – J.M. ADOVASIO – JAKE PAGE
RECORD – 1ª ED. - 2009
Cheguei a este livro depois de já ter lido
obras mais recentes sobre as mulheres no Paleolítico e no Neolítico, como O
homem pré-histórico também é mulher e Lady Sapiens. Ainda assim,
quando Sexo Invisível foi citado em um curso online sobre a história das
mulheres, meu interesse foi imediato. Li e a leitura se mostrou relevante,
apesar do tempo decorrido desde sua publicação.
É evidente que, por se tratar de um livro mais
antigo, muitas descobertas arqueológicas e revisões teóricas ocorreram depois.
Ainda assim, para quem se interessa pela reconstrução crítica da pré-história,
a obra permanece valiosa, sobretudo por seu gesto fundador: questionar
frontalmente a narrativa androcêntrica que dominou a arqueologia e a história
por décadas.
Escrito por três pesquisadores, o livro trouxe
para mim uma contribuição específica e decisiva: a ênfase nas pesquisas sobre
fibras. O avanço tecnológico permitiu estudar vestígios de cestos, cordas e
tecidos — materiais tradicionalmente desconsiderados por se deteriorarem mais
rapidamente. Em determinados contextos arqueológicos, no entanto, esses objetos
se preservaram parcialmente, revelando um universo técnico sofisticado,
invisibilizado pela centralidade atribuída às armas e à caça.
Essa discussão imediatamente remete ao texto
de A ficção como cesta: uma teoria, de Ursula Le Guin, no qual ela
defende que o cesto — e não a lança — foi a grande invenção do período. Sem
recipientes, não haveria como carregar, armazenar ou partilhar alimentos. Hoje,
sabe-se que a base da alimentação humana na pré-história era composta
majoritariamente por vegetais e pequenos animais, e não pelos grandes mamutes
caçados esporadicamente, como insistiu o imaginário heroico masculino.
Foram as mulheres, segundo os autores, que
desenvolveram o cesto, as cordas, os tecidos e, mais tarde, a agricultura.
Tecnologias essenciais à sobrevivência, à sedentarização e à própria emergência
daquilo que chamamos civilização. Ao recuperar essas práticas, Sexo
Invisível devolve às mulheres um lugar central na história humana — um
lugar que lhes foi sistematicamente negado.
O livro também evidencia como historiadores e
arqueólogos do século XIX projetaram seus próprios valores sobre o passado,
valorizando apenas aquilo que se alinhava a uma visão masculina de poder, força
e conquista. O resultado foi uma narrativa profundamente distorcida, que
reduziu o papel das mulheres a algo marginal ou inexistente.
Sexo Invisível não é
apenas uma obra sobre a pré-história: é um exercício de crítica epistemológica.
Ele nos obriga a perguntar não apenas quem fez a história, mas quem
foi autorizado a ser visto como agente histórico. E essa pergunta segue
sendo atual.
Olga Soffer nasceu em 1942. É antropóloga
James M. Adovasio nasceu em Youngstown, EUA, em 1944. É arqueólogo e especialista em artefatos perecíveis.
Jake Page nasceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 1936. É
um escritor.



Nenhum comentário:
Postar um comentário