sábado, 14 de fevereiro de 2026

MULHERES, TECNOLOGIA E O APAGAMENTO DA PRÉ-HISTÓRIA

 


SEXO INVISÍVEL: o verdadeiro papel da mulher na pré-história

OLGA SOFFER – J.M. ADOVASIO – JAKE PAGE

RECORD – 1ª ED. - 2009

Cheguei a este livro depois de já ter lido obras mais recentes sobre as mulheres no Paleolítico e no Neolítico, como O homem pré-histórico também é mulher e Lady Sapiens. Ainda assim, quando Sexo Invisível foi citado em um curso online sobre a história das mulheres, meu interesse foi imediato. Li e a leitura se mostrou relevante, apesar do tempo decorrido desde sua publicação.

É evidente que, por se tratar de um livro mais antigo, muitas descobertas arqueológicas e revisões teóricas ocorreram depois. Ainda assim, para quem se interessa pela reconstrução crítica da pré-história, a obra permanece valiosa, sobretudo por seu gesto fundador: questionar frontalmente a narrativa androcêntrica que dominou a arqueologia e a história por décadas.

Escrito por três pesquisadores, o livro trouxe para mim uma contribuição específica e decisiva: a ênfase nas pesquisas sobre fibras. O avanço tecnológico permitiu estudar vestígios de cestos, cordas e tecidos — materiais tradicionalmente desconsiderados por se deteriorarem mais rapidamente. Em determinados contextos arqueológicos, no entanto, esses objetos se preservaram parcialmente, revelando um universo técnico sofisticado, invisibilizado pela centralidade atribuída às armas e à caça.

Essa discussão imediatamente remete ao texto de A ficção como cesta: uma teoria, de Ursula Le Guin, no qual ela defende que o cesto — e não a lança — foi a grande invenção do período. Sem recipientes, não haveria como carregar, armazenar ou partilhar alimentos. Hoje, sabe-se que a base da alimentação humana na pré-história era composta majoritariamente por vegetais e pequenos animais, e não pelos grandes mamutes caçados esporadicamente, como insistiu o imaginário heroico masculino.

Foram as mulheres, segundo os autores, que desenvolveram o cesto, as cordas, os tecidos e, mais tarde, a agricultura. Tecnologias essenciais à sobrevivência, à sedentarização e à própria emergência daquilo que chamamos civilização. Ao recuperar essas práticas, Sexo Invisível devolve às mulheres um lugar central na história humana — um lugar que lhes foi sistematicamente negado.

O livro também evidencia como historiadores e arqueólogos do século XIX projetaram seus próprios valores sobre o passado, valorizando apenas aquilo que se alinhava a uma visão masculina de poder, força e conquista. O resultado foi uma narrativa profundamente distorcida, que reduziu o papel das mulheres a algo marginal ou inexistente.

Sexo Invisível não é apenas uma obra sobre a pré-história: é um exercício de crítica epistemológica. Ele nos obriga a perguntar não apenas quem fez a história, mas quem foi autorizado a ser visto como agente histórico. E essa pergunta segue sendo atual.


Olga Soffer nasceu em 1942. É antropóloga

James M. Adovasio nasceu em Youngstown, EUA, em 1944. É arqueólogo e especialista em artefatos perecíveis.

Jake Page nasceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 1936. É um escritor. 


 




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