segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

FICÇÃO COMO GESTO CRÍTICO


 

O SILÊNCIO DAS MULHERES

PAT BARKER

EXCELSIOR – 1ª ED. – 2022

304 páginas

O silêncio das mulheres, de Pat Barker, é uma releitura potente da Ilíada, de Homero, que respeita os principais eixos do relato épico, mas rompe com o silêncio imposto às mulheres na tradição clássica. Na obra original, elas aparecem de forma marginal, muitas vezes apenas mencionadas, quando não responsabilizadas pelos conflitos masculinos. Barker desloca esse olhar e traz para o centro aquelas que sempre estiveram à margem da narrativa heroica.

O livro é particularmente instigante porque enfrenta um desafio delicado: como dar voz a mulheres de um tempo que não é o nosso, sem projetar sobre elas uma consciência contemporânea? A autora resolve essa tensão com grande precisão. Em nenhum momento a leitura soa anacrônica. As mulheres não são retiradas de seu contexto histórico, nem há uma denúncia explícita ou didática das violências naturalizadas pela guerra. O fato de que, após a vitória de um lado, as mulheres do outro sejam escravizadas e usadas como objetos sexuais é apresentado como parte da ordem do mundo narrado, sem suavizações, mas também sem julgamentos externos.

A história se concentra em Briseida, tomada como prêmio de guerra por Aquiles e posteriormente arrancada dele por Agamenon, quando este é obrigado a devolver Criseida ao pai. Esse gesto desencadeia a ira de Aquiles e sua recusa em continuar lutando. A partir desse ponto conhecido da tradição homérica, Barker constrói uma narrativa que se detém no cotidiano das mulheres escravizadas pela guerra: algumas antigas rainhas, como a própria Briseida, outras mulheres comuns. O livro acompanha o que fazem, como ocupam o tempo, o que dizem entre si, como sobrevivem física e emocionalmente à derrota e à perda de tudo o que as definia.

Trata-se de uma obra de ficção, de literatura, e é justamente aí que reside sua força. Ao reler um mito fundador do Ocidente a partir das vozes silenciadas, Pat Barker realiza um gesto semelhante ao de Marguerite Yourcenar em Memórias de Adriano, ao retornar a um tempo distante sem violentá-lo com categorias do presente. O silêncio das mulheres não corrige Homero, mas revela aquilo que sua narrativa deixou à sombra  e, ao fazê-lo, amplia de maneira decisiva nossa forma de ler a guerra, o heroísmo e a história.


Pat Barker nasceu em Thornaby-on-Tees, Reino Unido, em 1943. Escritora e romancista inglesa. 


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