O SILÊNCIO DAS MULHERES
PAT BARKER
EXCELSIOR – 1ª ED. – 2022
304 páginas
O silêncio das mulheres, de Pat
Barker, é uma releitura potente da Ilíada, de Homero, que respeita os
principais eixos do relato épico, mas rompe com o silêncio imposto às mulheres
na tradição clássica. Na obra original, elas aparecem de forma marginal, muitas
vezes apenas mencionadas, quando não responsabilizadas pelos conflitos
masculinos. Barker desloca esse olhar e traz para o centro aquelas que sempre
estiveram à margem da narrativa heroica.
O livro é particularmente instigante porque
enfrenta um desafio delicado: como dar voz a mulheres de um tempo que não é o
nosso, sem projetar sobre elas uma consciência contemporânea? A autora resolve
essa tensão com grande precisão. Em nenhum momento a leitura soa anacrônica. As
mulheres não são retiradas de seu contexto histórico, nem há uma denúncia
explícita ou didática das violências naturalizadas pela guerra. O fato de que,
após a vitória de um lado, as mulheres do outro sejam escravizadas e usadas como
objetos sexuais é apresentado como parte da ordem do mundo narrado, sem
suavizações, mas também sem julgamentos externos.
A história se concentra em Briseida, tomada
como prêmio de guerra por Aquiles e posteriormente arrancada dele por Agamenon,
quando este é obrigado a devolver Criseida ao pai. Esse gesto desencadeia a ira
de Aquiles e sua recusa em continuar lutando. A partir desse ponto conhecido da
tradição homérica, Barker constrói uma narrativa que se detém no cotidiano das
mulheres escravizadas pela guerra: algumas antigas rainhas, como a própria
Briseida, outras mulheres comuns. O livro acompanha o que fazem, como ocupam o
tempo, o que dizem entre si, como sobrevivem física e emocionalmente à derrota
e à perda de tudo o que as definia.
Trata-se de uma obra de ficção, de literatura,
e é justamente aí que reside sua força. Ao reler um mito fundador do Ocidente a
partir das vozes silenciadas, Pat Barker realiza um gesto semelhante ao de
Marguerite Yourcenar em Memórias de Adriano, ao retornar a um tempo
distante sem violentá-lo com categorias do presente. O silêncio das mulheres
não corrige Homero, mas revela aquilo que sua narrativa deixou à sombra e, ao fazê-lo, amplia de maneira decisiva
nossa forma de ler a guerra, o heroísmo e a história.
Pat Barker nasceu em Thornaby-on-Tees, Reino Unido, em 1943.
Escritora e romancista inglesa.


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