LOU ANDREAS-SALOMÉ
DORIAN ASTOR
L&PM – 1ª ED. – 2016
320 páginas
Dorian Astor nos apresenta um retrato amplo e
sensível de Lou Andreas-Salomé, acompanhando sua trajetória da infância até a
morte, bem como suas relações intelectuais e afetivas com figuras centrais do
pensamento europeu, como Paul Rée, Friedrich Nietzsche, Rainer Maria Rilke,
Andreas — seu marido — e Sigmund Freud, além de muitas outras amizades que
marcaram sua vida intelectual. Mais do que uma biografia factual, o livro
constrói a imagem de uma mulher profundamente à frente de seu tempo, talvez até
do nosso, que prezava a liberdade, a autonomia intelectual e uma relação
afirmativa com a vida.
Lou aparece como uma pensadora que via,
inclusive na dor e na tristeza, uma possibilidade de crescimento e de superação
daquilo que paralisa. Nesse sentido, sua postura se opunha à noção freudiana de
pulsão de morte: para ela, mesmo no sofrimento, é sempre a vida que pulsa,
jamais a inércia ou a morte. Essa confiança radical na vitalidade atravessa
tanto sua obra quanto suas escolhas pessoais.
Infelizmente, por decisão própria, Lou
preservou rigorosamente sua vida privada. Grande parte de sua correspondência
foi destruída por ela mesma e por seus interlocutores, a seu pedido, o que nos
priva de um acesso mais amplo ao desenvolvimento de seu pensamento. Permanecem
lacunas, ainda que seus romances e ensaios permitam traçar esse percurso de
forma indireta, revelando muito de suas inquietações e elaborações interiores.
Lou Andreas-Salomé é mais uma entre tantas
grandes mulheres pensadoras lembradas sobretudo por suas relações com homens
consagrados, e não por sua própria produção intelectual. O mérito do livro de
Dorian Astor está justamente em combater essa redução, mostrando que Lou jamais
foi uma sombra ao lado desses homens, ao contrário, foi presença ativa,
interlocutora respeitada e pensamento autônomo. Muito difamada, especialmente
pela irmã de Nietzsche, talvez tenha sido essa experiência que a levou a
valorizar tanto o silêncio e a privacidade, optando por não comentar publicamente
sua amizade com o filósofo, exceto pelo que escreveu sobre sua obra e sua
filosofia.
O autor também aborda a relação ambígua de Lou
com o feminismo. Apesar de sua independência, liberdade de pensamento e vida
pouco convencional, ela nunca se declarou feminista. Embora tivesse amigas
engajadas nessas lutas, Lou acreditava que a verdadeira liberdade era
essencialmente interna. Questões como o direito ao voto ou o trabalho feminino
lhe pareciam externas, insuficientes para tocar o núcleo da emancipação
individual.
O retrato que emerge é o de uma mulher
vibrante, intensamente viva, brilhante em seus pensamentos, admirada e amada
por muitos homens, mas que jamais abriu mão de sua independência. Uma figura
que continua a desafiar categorias fáceis e a exigir leituras que não a
reduzam, nem a expliquem apenas por suas relações.
Dorian Astor nasceu em Béziers, França, em 1973. É um
filósofo e germanista francês especialista em Nietzsche.


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