MULHERES EMPILHADAS
PATRÍCIA MELO
LEYA - 2019
240 páginas
Mulheres empilhadas, de
Patrícia Melo, constrói pela ficção um retrato duro e necessário da vida de
mulheres reais atravessadas pela violência doméstica, psicológica e, em muitos
casos, pelo feminicídio. O romance expõe não apenas a violência em si, mas
também os mecanismos de culpabilização da mulher, tanto no plano social quanto
no jurídico, revelando como essas estruturas contribuem para a repetição e a
naturalização da brutalidade.
A narrativa acompanha uma jovem advogada que
deixa São Paulo e segue para o Acre para assistir a julgamentos de feminicídio.
O estado aparece como um território marcado por índices alarmantes de mortes de
mulheres cometidas por companheiros, ex-companheiros ou homens movidos por
misoginia explícita. O deslocamento geográfico é também um deslocamento de
consciência: ao se aproximar dessas histórias, a protagonista se confronta com
a extensão da violência e com a fragilidade das respostas institucionais.
Paralelamente, o livro incorpora um mito
indígena e seus rituais ligados às mulheres, criando uma camada simbólica que
dialoga com a narrativa principal. Essa dimensão mítica não suaviza a
violência, mas a aprofunda, estabelecendo conexões entre passado,
ancestralidade e o presente brutal. Aos poucos, a protagonista reconhece que
ela própria vive uma relação marcada pela violência, compreendendo que um tapa
não tem justificativa, não é exceção, nem acidente, mas sinal claro de um ciclo
que tende a se agravar.
O romance intercala a ficção com notícias
reais de mulheres assassinadas por seus companheiros, rompendo qualquer
possibilidade de distanciamento confortável por parte do leitor. Essa
estratégia reforça o caráter político do livro, que se recusa a tratar o
feminicídio como estatística ou exceção. Mulheres empilhadas é uma
leitura incômoda, urgente e necessária. Um livro que toda mulher deveria ler,
não como alerta abstrato, mas como reconhecimento de uma realidade que insiste
em se repetir.
Patrícia Melo nasceu em Assis em 1962. É uma escritora,
roteirista, dramaturga e artista plástica brasileira.


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