quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

UTOPIA, DECEPÇÃO E VIOLÊNCIA POLÍTICA

 


O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS

LEONARDO PADURA

BOITEMPO – 2ª ED. 2015

É um livro impressionante. O homem que amava os cachorros narra a história de Ramón Mercader, o assassino de Trotsky no México, e, em paralelo, a trajetória da própria vítima. Mas o romance é muito mais do que a reconstituição de um crime histórico. Ele é, sobretudo, uma reflexão profunda sobre o stalinismo e sobre a destruição de uma utopia.

Padura mostra como, naqueles anos, se instaurou uma fé cega em Stálin e no comunismo stalinista — algo muito distante do projeto comunista original. Essa fé foi construída por meio de mentiras sistemáticas, propaganda e manipulação, num mecanismo que guarda semelhanças inquietantes com o que ocorreu no nazismo de Hitler, especialmente na fabricação do antissemitismo. É impossível não traçar paralelos com o presente, quando a desinformação e as fake news continuam sendo instrumentos eficazes de controle.

Outro elemento central é o medo. Um medo profundo e paralisante. Posicionar-se contra Stálin significava, muitas vezes, a morte — não apenas para opositores declarados, mas também para qualquer um que ameaçasse, ainda que minimamente, o ego inflado do líder. O terror era parte estruturante do sistema.

Talvez o ponto mais forte do livro seja a descrição do fim de uma utopia compartilhada por toda uma geração. O sonho de uma sociedade mais justa, em oposição ao capitalismo predatório, foi sendo corrompido nas mãos de líderes que se revelaram ditadores: Stálin, Mao e, em certa medida, Fidel Castro, quando observamos a miséria, o controle e o medo que também marcaram Cuba.

Muitos se perguntam hoje como tantos intelectuais, escritores e artistas aderiram ao comunismo stalinista. Padura ajuda a compreender esse fenômeno ao mostrar que pouco se sabia, de fato, sobre o que ocorria dentro dos países comunistas. Para muitos, tratava-se da única alternativa possível contra a pobreza, a exploração e a miséria do trabalhador. As denúncias eram facilmente descartadas como invenções capitalistas ou fascistas.

Ao final da leitura, permanece uma sensação profunda de decepção, frustração e, em alguns casos, culpa. A figura do assassino de Trotsky encarna isso de forma trágica: um homem cuja vida foi conduzida por outros, transformado em instrumento de um ódio que não era verdadeiramente seu. Um ódio que, no fundo, era o ódio de Stálin por alguém que estivera na vanguarda da Revolução Russa, mas que, no momento de sua morte, já era um velho isolado e desacreditado — alvo de mentiras, como a falsa acusação de aliança com os nazistas, que nunca existiu.

É uma leitura fundamental tanto para compreender o stalinismo e esse período histórico quanto como alerta para o presente. Um livro que nos ensina a desconfiar de verdades absolutas, de líderes carismáticos e de tudo aquilo que se espalha sem mediação crítica, especialmente nas redes sociais.

Leonardo Padura Fuentes nasceu em Havana, Cuba, em 1955. É um escritor e jornalista cubano.




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