O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS
LEONARDO PADURA
BOITEMPO – 2ª ED. 2015
É um livro impressionante. O
homem que amava os cachorros narra a história de Ramón Mercader, o
assassino de Trotsky no México, e, em paralelo, a trajetória da própria vítima.
Mas o romance é muito mais do que a reconstituição de um crime histórico. Ele
é, sobretudo, uma reflexão profunda sobre o stalinismo e sobre a destruição de
uma utopia.
Padura mostra como, naqueles
anos, se instaurou uma fé cega em Stálin e no comunismo stalinista — algo muito
distante do projeto comunista original. Essa fé foi construída por meio de
mentiras sistemáticas, propaganda e manipulação, num mecanismo que guarda
semelhanças inquietantes com o que ocorreu no nazismo de Hitler, especialmente
na fabricação do antissemitismo. É impossível não traçar paralelos com o
presente, quando a desinformação e as fake news continuam sendo
instrumentos eficazes de controle.
Outro elemento central é o medo.
Um medo profundo e paralisante. Posicionar-se contra Stálin significava, muitas
vezes, a morte — não apenas para opositores declarados, mas também para
qualquer um que ameaçasse, ainda que minimamente, o ego inflado do líder. O
terror era parte estruturante do sistema.
Talvez o ponto mais forte do
livro seja a descrição do fim de uma utopia compartilhada por toda uma geração.
O sonho de uma sociedade mais justa, em oposição ao capitalismo predatório, foi
sendo corrompido nas mãos de líderes que se revelaram ditadores: Stálin, Mao e,
em certa medida, Fidel Castro, quando observamos a miséria, o controle e o medo
que também marcaram Cuba.
Muitos se perguntam hoje como
tantos intelectuais, escritores e artistas aderiram ao comunismo stalinista.
Padura ajuda a compreender esse fenômeno ao mostrar que pouco se sabia, de
fato, sobre o que ocorria dentro dos países comunistas. Para muitos, tratava-se
da única alternativa possível contra a pobreza, a exploração e a miséria do
trabalhador. As denúncias eram facilmente descartadas como invenções
capitalistas ou fascistas.
Ao final da leitura, permanece
uma sensação profunda de decepção, frustração e, em alguns casos, culpa. A
figura do assassino de Trotsky encarna isso de forma trágica: um homem cuja
vida foi conduzida por outros, transformado em instrumento de um ódio que não
era verdadeiramente seu. Um ódio que, no fundo, era o ódio de Stálin por alguém
que estivera na vanguarda da Revolução Russa, mas que, no momento de sua morte,
já era um velho isolado e desacreditado — alvo de mentiras, como a falsa
acusação de aliança com os nazistas, que nunca existiu.
É uma leitura fundamental tanto
para compreender o stalinismo e esse período histórico quanto como alerta para
o presente. Um livro que nos ensina a desconfiar de verdades absolutas, de
líderes carismáticos e de tudo aquilo que se espalha sem mediação crítica,
especialmente nas redes sociais.
Leonardo Padura Fuentes nasceu em
Havana, Cuba, em 1955. É um escritor e jornalista cubano.


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