quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

SAÚDE PÚBLICA, DESIGUALDADE E ESCUTA

 


PACIENTES QUE CURAM: O cotidiano de uma médica do SUS

JULIA ROCHA

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 6ª ED. - 2020


Júlia Rocha relata o dia a dia em uma unidade do SUS localizada em uma região marcada pela pobreza e pela desigualdade social. Como a própria autora afirma, foi nesse contexto que ela aprendeu, e se deu conta, do quanto quem não vive essa realidade desconhece completamente o que ela significa. Esse distanciamento produz inúmeros preconceitos e ideias equivocadas sobre as pessoas que ali vivem. De um lado, estão aqueles que têm direitos e conseguem exercê-los; de outro, os que sequer sabem que esses direitos existem.

O livro é composto por histórias comoventes, que retratam com dureza e humanidade a realidade desses pacientes. Trata-se, sobretudo, de uma defesa da humanização no atendimento à saúde. Júlia Rocha chama a atenção para o fato de que a maioria dos médicos vem de famílias com melhores condições financeiras, já que a faculdade de medicina é extremamente cara. São profissionais que, em geral, não compartilham a vivência social de seus pacientes e, por isso, precisam aprender, antes de tudo, a ouvir.

Muitas vezes, o que aparece como uma doença física é, na verdade, consequência direta das condições de vida. A autora relata o caso de uma mulher que se queixava de dores constantes, mas que era vítima de estupro. Não havia medicamento capaz de eliminar definitivamente aquela dor, pois sua origem não estava no corpo, mas na violência sofrida. Júlia Rocha também critica médicos que, diante do sofrimento dessas pessoas, recorrem automaticamente à prescrição de antidepressivos. Como ela mesma afirma, “curam o machismo com antidepressivos”.

São mulheres que apanham, que são abandonadas, que vivem sob múltiplas formas de violência. O que elas precisam, antes de tudo, é serem ouvidas. É necessário conhecer suas histórias, tentar ajudá-las e encaminhá-las para acompanhamento psicológico no próprio posto de saúde, em vez de simplesmente medicá-las.

A leitura é altamente recomendada. Para quem não é médico, o livro funciona como um verdadeiro banho de realidade, capaz de provocar reflexões profundas e contribuir para o enfrentamento do racismo, do preconceito e da desumanização ainda tão presentes na sociedade brasileira.

 

Julia Rocha nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1983. É médica, cantora, escritora e compositora brasileira. 



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