A FILHA FAVORITA
FAWZIA KOOFI – NADENE GHOURI
OBJETIVA – 1ª – 2013
280 páginas
Este livro me levou a olhar para
o Afeganistão de outra
maneira. A imagem que se cristalizou no Ocidente — sobretudo após o 11 de
Setembro — associa o país quase exclusivamente ao Talibã, à guerra e ao terror.
A Filha Favorita, no entanto, desloca esse olhar.
Mostra um território de história milenar, atravessado por sucessivas
turbulências políticas: da invasão soviética à tomada do poder pelos mujahidin,
do regime talibã a uma frágil tentativa de democracia, e com a retirada das
tropas norte-americanas a volta do Talibã.
Mas o centro do livro não é
apenas o país: é a vida de uma mulher excepcional. Fawzia Koofi, ao nascer,
foi deixada ao sol para morrer — prática brutal que marca o destino de muitas
meninas. Sobreviveu. E não apenas isso: tornou-se uma das figuras mais
importantes da política afegã, chegando à vice-presidência do parlamento. Sua
trajetória pessoal é, ao mesmo tempo, singular e coletiva, porque carrega as
marcas de milhões de mulheres invisibilizadas.
Para compreender as mulheres
retratadas neste livro, é preciso suspender, ao menos por um instante, nossos
conceitos ocidentais. O que emerge dessas páginas não é submissão passiva, mas coragem, força, dignidade e persistência. Há também uma profunda
sororidade feminina: mulheres que se protegem, se orientam e se fortalecem
mutuamente em contextos de extrema violência.
O livro percorre a vida nas
aldeias, nas pequenas cidades e na capital, Cabul. Mostra o desejo intenso de
estudar, de participar da vida pública, de lutar por um país menos violento.
Revela também a complexidade das estruturas familiares, incluindo o amor entre
irmãos e irmãs filhos de mães diferentes, já que a poligamia é permitida. Longe
de idealizar, a narrativa humaniza essas relações e expõe suas contradições.
A Filha Favorita
é escrito como uma espécie de testamento às filhas de Fawzia Koofi, porque sua
vida é permanentemente ameaçada. Essa condição de risco constante atravessa
todo o texto e dá a ele uma urgência particular: escrever é também resistir,
deixar registro, afirmar que essas vidas importam.
Ler este livro é um exercício de
alteridade. Conhecer outras culturas amplia horizontes, desmonta estereótipos e
nos obriga a pensar para além de nossas próprias referências. Ao final, fica
claro que compreender o Afeganistão e, sobretudo, suas mulheres, não é um gesto
de curiosidade distante, mas um compromisso ético com a complexidade do mundo e
com as muitas formas possíveis de coragem.
Fawzia Koofi nasceu em Badaquexão, em 1975. É uma política e
feminista afegã. Ocupou o cargo de vice-presidente do Parlamento do
Afeganistão.


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