BOITEMPO – 1ª ED. - 2016
248 páginas
Mulheres, raça e classe, de Angela
Davis, traça um amplo e rigoroso percurso histórico da experiência das mulheres
negras nos Estados Unidos, desde a escravização até períodos mais recentes. A
autora articula história social, análise política e crítica feminista para
demonstrar como raça, gênero e classe nunca atuaram de forma isolada, mas
sempre de maneira entrelaçada, produzindo desigualdades específicas e
persistentes.
Ao longo do livro, Davis examina criticamente
o movimento abolicionista, o feminismo e a luta pelo sufrágio feminino,
evidenciando as tensões internas que marcaram essas mobilizações. Um dos pontos
centrais de sua análise é a recusa de mulheres brancas em reconhecer plenamente
as mulheres negras como aliadas políticas, especialmente no contexto da luta
pelo voto, quando muitas preferiram excluí-las para não criar conflitos com as
mulheres do Sul escravista. Esse gesto revela como o feminismo hegemônico, desde
suas origens, esteve atravessado por interesses raciais e de classe.
A autora também se debruça sobre a questão do
trabalho, mostrando como as mulheres negras e as mulheres imigrantes sempre
estiveram inseridas no mercado de trabalho, lutando por direitos básicos,
enquanto grande parte das mulheres brancas, amparadas por uma ideologia de
classe média, reivindicava direitos a partir do ideal do lar, como o divórcio
ou a proteção da maternidade. Essa diferença estrutural expõe projetos
políticos distintos, frequentemente incompatíveis, mas tratados como universais
pelo feminismo branco.
O que Angela Davis antecipa, com
impressionante clareza, é aquilo que hoje chamamos de interseccionalidade: a
compreensão de que as opressões de gênero, raça e classe se constituem
mutuamente e não podem ser analisadas separadamente. Mulheres, raça e classe
permanece, assim, uma obra fundamental para desmontar narrativas feministas
excludentes e para pensar lutas emancipatórias que não reproduzam as
hierarquias que pretendem combater.
Angela Davis nasceu em Birmingham, Alabama, EUA, em 1944. É uma filósofa e ativista
socialista estadunidense.


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