sábado, 14 de fevereiro de 2026

DA FILOSOFIA AO ROMANCE GÓTICO: HERANÇAS FEMININAS SILENCIADAS

 


MULHERES EXTRAORDINÁRIAS: AS CRIADORAS E A CRIATURA

Mary Wollstonecraft & Mary Shelley

CHARLOTE GORDON

DARKSIDE BOOKS – 1ª ED. 2020

Esta biografia propõe uma construção narrativa particularmente feliz: a vida de Mary Wollstonecraft e de Mary Shelley é apresentada em capítulos alternados. Esse recurso permite ao leitor perceber, com clareza e sensibilidade, a continuidade intelectual e ética entre mãe e filha — mesmo que Shelley jamais tenha conhecido Wollstonecraft, morta pouco após seu nascimento.

Mary Wollstonecraft foi uma pensadora radical para seu tempo. Defendeu os direitos das mulheres, sobretudo o direito à educação, algo praticamente impensável no final do século XVIII. Filósofa, escritora e intelectual pública, escreveu sobre educação, política e sociedade, questionando frontalmente a ordem patriarcal. Ainda assim, permanece à margem dos currículos de Filosofia até hoje, como se seu pensamento fosse um apêndice moral, e não filosofia propriamente dita.

Mary Shelley, por sua vez, viveu segundo seus próprios desejos, enfrentando as convenções sociais de forma direta. Fugiu aos 16 anos com o poeta Percy Shelley, escandalizando a sociedade da época. Sua vida foi marcada por perdas, dificuldades materiais, luto e isolamento — experiências que atravessam profundamente sua escrita.

O legado literário de Shelley é frequentemente reduzido a uma única obra. Frankenstein, seu livro mais conhecido, foi duramente criticado quando publicado, não apenas pelo conteúdo perturbador, mas por ter sido escrito por uma mulher. A “criatura” foi considerada monstruosa demais para ter nascido de mãos femininas, julgamento que diz mais sobre a sociedade do que sobre a obra.

Ao acompanhar essas duas trajetórias, o livro evidencia como mulheres que ousavam pensar, escrever e viver fora das normas eram punidas: pela família, pela sociedade e pelas instituições. A recusa às convenções significava, muitas vezes, exclusão, difamação e solidão. Ainda assim, tanto Wollstonecraft quanto Shelley persistiram, cada uma à sua maneira, abrindo caminhos que só muito mais tarde seriam reconhecidos.

Mulheres Extraordinárias é uma leitura que vale cada página. Mais do que uma biografia dupla, o livro constrói uma genealogia feminina do pensamento e da criação, mostrando o quanto as mulheres foram historicamente cerceadas e, apesar disso, produziram obras que atravessaram os séculos. É também um convite a repensar quem chamamos de “criadores” da cultura e quantas criadoras foram silenciadas nesse processo.


Charlote Gordon nasceu em St. Louis, Missouri, EUA. É uma escritora e professora de humanidades. 


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