NEFERTITI – SACERDOTISA, DEUSA E FARAÓ
ANNA CRISTINA FERREIRA DE SOUZA
MADRAS – 1ª ED. - 2020
Neste livro, Anna Cristina
Ferreira de Souza analisa a figura de Nefertiti a partir da arte do período de
Amarna. A autora aborda a XVIII dinastia e seus reinados, mas, para mim, o
aspecto mais relevante da obra é a maneira como ela trabalha a religião egípcia,
contribuindo para a compreensão de conceitos fundamentais como o monismo, a
complementaridade e os princípios associados ao feminino naquele contexto:
fertilidade, maternidade e maturidade.
O livro discute também, ainda
que de forma breve, a diferença entre monoteísmo e monolatria — distinção que
considero especialmente importante. É comum ouvir que Akhenaton e Nefertiti
teriam instaurado o primeiro monoteísmo da história, o que não é correto. O
monoteísmo pressupõe a existência de um único Deus, enquanto, no Egito, o culto
a Aton se configura como monolatria: a centralidade de um deus principal, sem a
negação da existência de outros, como Ísis e Osíris. Essa diferenciação, muitas
vezes ignorada, é um dos pontos mais esclarecedores do livro.
Após uma introdução extremamente
instigante, que contextualiza esses elementos religiosos e simbólicos, a autora
se volta diretamente para Nefertiti, com ênfase em sua função social e
política. A rainha não aparece como figura secundária ou decorativa, mas como
uma presença ativa no poder, visível nas representações artísticas e nas
práticas do período.
Nefertiti não esteve à sombra do
faraó. Ao contrário, surge como parte de uma lógica de complementaridade entre
o masculino e o feminino, característica da cosmovisão egípcia, e como
expressão de um modelo de poder que não se organizava exclusivamente pela
hierarquia e pela exclusão. Nesse sentido, o livro contribui para deslocar
leituras tradicionais e recolocar Nefertiti no lugar que lhe foi historicamente
negado: o de protagonista.

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