POVO DE DEUS: QUEM SÃO OS EVANGÉLICOS E POR QUE ELES
IMPORTAM
GERAÇÃO EDITORIAL – 1ª ED. – 2020
284 páginas
Este livro me ensinou muito. Para quem não é
evangélico, esse universo costuma aparecer de forma difusa: ouvimos falar,
convivemos com pessoas que pertencem a essas igrejas e, muitas vezes, diante de
posições extremamente conservadoras, acabamos reproduzindo preconceitos. A
questão que me atravessava, no entanto, era outra: por que tantas pessoas estão
se convertendo ao evangelismo, muitas delas deixando o catolicismo? É
justamente essa pergunta que o livro de Juliano Spyer ajuda a responder.
A leitura permite compreender que uma grande
parcela dessas pessoas encontra nas igrejas evangélicas o acolhimento e o
suporte que o Estado, e muitas vezes outras instituições religiosas, não
oferecem. Trata-se de contextos marcados pela pobreza, pela violência
cotidiana, pela convivência com o crime, pela atuação frequentemente brutal da
polícia, pelo desemprego, pela falta de creches, de acesso à saúde, a
medicamentos ou a apoio jurídico. As igrejas aparecem como redes concretas de
apoio material e simbólico. A fé também ocupa um lugar central, pois essas
pessoas se sentem vistas, escutadas e socorridas por Jesus.
Um ponto particularmente complexo, e que
confesso ter me causado estranhamento inicial, é a questão do empoderamento
feminino dentro dessas igrejas. No entanto, dentro desse contexto específico,
ele de fato ocorre. São mulheres que sofrem violência doméstica, muitas vezes
de companheiros alcoólatras, mulheres que nunca foram ouvidas, que acumulam
dupla jornada ou que, por baixa escolaridade, não conseguem trabalho. Ao
ingressarem na igreja, passam a falar, a ser escutadas, a receber apoio, a
conseguir emprego. Em muitos casos, os maridos acabam se convertendo, deixam de
beber e passam a se dedicar mais à família. O fato de o homem ser considerado o
“chefe da casa” não aparece como um problema para essas mulheres, pois elas
sabem que sua presença e transformação são resultado direto da atuação delas
dentro da igreja. Há, aí, uma lógica própria de reconhecimento e pertencimento.
Por outro lado, se o livro explica com clareza
as razões do crescimento das igrejas evangélicas e apresenta as diferenças
internas do protestantismo e de suas múltiplas denominações, ele também faz uma
crítica contundente à busca de poder político junto ao Estado e às
consequências disso para quem não é evangélico. Se, em um primeiro momento, o
protestantismo no Brasil lutou pela liberdade religiosa em um país
majoritariamente católico, hoje parte de suas lideranças atua no sentido
oposto: impor suas crenças, valores e dogmas à sociedade como um todo.
Essa postura está ligada à crença de que Jesus
só retornará quando todos forem evangelizados. No entanto, do ponto de vista
das lideranças, trata-se frequentemente de um jogo de poder que nem sempre
corresponde ao pensamento ou às necessidades dos fiéis. O livro aborda ainda
posições contrárias aos direitos humanos, ao meio ambiente e à ciência, bem
como as tentativas de introduzir nas escolas visões neopentecostais, como o
criacionismo ou uma leitura histórica baseada exclusivamente na Bíblia.
Spyer explica de forma didática o que é a
teologia da prosperidade e como ela se articula à noção de meritocracia, em
contraste com a ética protestante do trabalho presente nas igrejas históricas.
Trata-se de uma chave fundamental para compreender tanto o discurso religioso
quanto sua tradução política e econômica.
Considero uma leitura necessária para quem
deseja compreender melhor o Brasil contemporâneo. Conhecer não significa
concordar. O livro amplia o entendimento sobre um fenômeno central da nossa
vida social e política, ainda que eu continue defendendo, sem ressalvas, o
Estado laico e a liberdade religiosa para todos.
Juliano Spyer nasceu em São Paulo
em 1971. É um antropólogo brasileiro.


Nenhum comentário:
Postar um comentário