quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A MORTE COMO POLÍTICA

 


NECROPOLÍTICA

ACHILLE MBEMBE

N-1 EDIÇÕES – 1ª ED. – 2018

80 páginas

Em Necropolítica, Achille Mbembe, propõe um deslocamento radical da reflexão política contemporânea ao perguntar não apenas quem governa, mas quem tem o poder de decidir sobre a vida e, sobretudo, sobre a morte. Partindo e tensionando o conceito de biopolítica, Mbembe mostra que, em muitos contextos, o exercício do poder se manifesta principalmente como a capacidade de expor populações inteiras à morte, ao abandono e à violência contínua.

O autor localiza as origens da necropolítica na experiência colonial e escravista, entendendo o colonialismo como um laboratório de técnicas de dominação extrema. Nas colônias, o direito não protegia a vida, mas organizava a morte; certos corpos eram desde sempre matáveis, descartáveis, reduzidos a uma existência precária. A modernidade política, frequentemente celebrada como espaço de direitos e cidadania, revela assim seu lado mais sombrio, sustentado por regimes de exceção permanentes aplicados a populações racializadas.

Mbembe amplia essa análise ao observar como essas lógicas se atualizam no presente. Estados, milícias, forças paramilitares e até estruturas econômicas exercem poder necropolítico ao controlar territórios, corpos e mobilidades, criando zonas onde a vida é suspensa. Campos de refugiados, favelas, prisões, fronteiras militarizadas e territórios ocupados tornam-se espaços onde a morte não é um acidente, mas uma possibilidade sempre iminente, administrada politicamente.

Um dos aspectos mais perturbadores do livro é a articulação entre soberania, violência e racismo. A raça aparece como um operador central da necropolítica, definindo quais vidas merecem luto e proteção e quais podem ser eliminadas sem escândalo. Nesse sentido, Mbembe mostra que o racismo não é um desvio do sistema democrático, mas um de seus mecanismos constitutivos, sobretudo quando articulado à lógica colonial e capitalista.

Necropolítica exige uma leitura atenta e desconfortável. Não se trata de um texto introdutório ou conciliador, mas de uma intervenção teórica que obriga o leitor a confrontar a violência estrutural que sustenta o mundo contemporâneo. Em contextos como o brasileiro, marcados por genocídio da população negra, encarceramento em massa e militarização dos territórios pobres, o conceito de necropolítica revela sua potência explicativa e sua urgência ética.

O livro não oferece respostas fáceis nem caminhos de redenção. Sua força está em nomear o indizível, em tornar visível aquilo que o discurso político dominante tenta naturalizar ou ocultar. Ler Mbembe é reconhecer que, para muitos, a morte não é exceção, mas condição permanente, e que qualquer projeto político verdadeiramente emancipatório precisa começar por esse reconhecimento.


Achille Mbembe nasceu em Centro, Camarões, em 1957. É um filósofo, cientista político, historiador e professor camaronês. 


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