N-1 EDIÇÕES – 1ª ED. – 2018
80 páginas
Em Necropolítica, Achille Mbembe,
propõe um deslocamento radical da reflexão política contemporânea ao perguntar
não apenas quem governa, mas quem tem o poder de decidir sobre a vida e,
sobretudo, sobre a morte. Partindo e tensionando o conceito de biopolítica,
Mbembe mostra que, em muitos contextos, o exercício do poder se manifesta
principalmente como a capacidade de expor populações inteiras à morte, ao
abandono e à violência contínua.
O autor localiza as origens da necropolítica
na experiência colonial e escravista, entendendo o colonialismo como um
laboratório de técnicas de dominação extrema. Nas colônias, o direito não
protegia a vida, mas organizava a morte; certos corpos eram desde sempre
matáveis, descartáveis, reduzidos a uma existência precária. A modernidade
política, frequentemente celebrada como espaço de direitos e cidadania, revela
assim seu lado mais sombrio, sustentado por regimes de exceção permanentes
aplicados a populações racializadas.
Mbembe amplia essa análise ao observar como
essas lógicas se atualizam no presente. Estados, milícias, forças paramilitares
e até estruturas econômicas exercem poder necropolítico ao controlar
territórios, corpos e mobilidades, criando zonas onde a vida é suspensa. Campos
de refugiados, favelas, prisões, fronteiras militarizadas e territórios
ocupados tornam-se espaços onde a morte não é um acidente, mas uma
possibilidade sempre iminente, administrada politicamente.
Um dos aspectos mais perturbadores do livro é
a articulação entre soberania, violência e racismo. A raça aparece como um
operador central da necropolítica, definindo quais vidas merecem luto e
proteção e quais podem ser eliminadas sem escândalo. Nesse sentido, Mbembe
mostra que o racismo não é um desvio do sistema democrático, mas um de seus
mecanismos constitutivos, sobretudo quando articulado à lógica colonial e
capitalista.
Necropolítica exige uma
leitura atenta e desconfortável. Não se trata de um texto introdutório ou
conciliador, mas de uma intervenção teórica que obriga o leitor a confrontar a
violência estrutural que sustenta o mundo contemporâneo. Em contextos como o
brasileiro, marcados por genocídio da população negra, encarceramento em massa
e militarização dos territórios pobres, o conceito de necropolítica revela sua
potência explicativa e sua urgência ética.
O livro não oferece respostas fáceis nem
caminhos de redenção. Sua força está em nomear o indizível, em tornar visível
aquilo que o discurso político dominante tenta naturalizar ou ocultar. Ler
Mbembe é reconhecer que, para muitos, a morte não é exceção, mas condição
permanente, e que qualquer projeto político verdadeiramente emancipatório
precisa começar por esse reconhecimento.
Achille Mbembe
nasceu em Centro, Camarões, em 1957. É um filósofo, cientista político,
historiador e professor camaronês.


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