MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS
Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem.
ROCCO – 1ª ED. – 1994
628 páginas
Em Mulheres que correm com os lobos: mitos
e histórias do arquétipo da mulher selvagem, Clarissa Pinkola Estés,
constrói uma obra que atravessa psicologia, mitologia, folclore e
espiritualidade para pensar o feminino a partir de uma dimensão arcaica,
instintiva e simbólica. O livro propõe a recuperação daquilo que a autora chama
de “mulher selvagem”, entendida não como figura primitiva ou desordenada, mas
como fonte profunda de saber, intuição, criatividade e força vital.
A partir de mitos e contos tradicionais de
diferentes culturas, Estés interpreta narrativas ancestrais como mapas
psíquicos. Cada história funciona como um espelho simbólico das experiências
femininas: perda, iniciação, ferida, silêncio, retorno e transformação. O lobo
surge como metáfora central desse feminino instintivo: um ser que conhece os
ciclos da vida, que vive em relação com o território, que sabe quando avançar e
quando recolher-se. Correr com os lobos, nesse sentido, não é romper com a
cultura, mas reconectar-se a um saber soterrado por séculos de repressão, moralização
e domesticação do corpo e do desejo femininos.
O livro dialoga fortemente com a psicanálise
junguiana, sobretudo com a noção de arquétipo, e propõe uma escuta atenta dos
símbolos como linguagem da alma. No entanto, sua força não está apenas na
teoria, mas na maneira como convoca a leitora a um processo de reconhecimento
de si. Ao nomear feridas coletivas — como o silenciamento, a culpa, a perda da
autonomia e o medo da própria potência —, Estés oferece imagens que auxiliam na
reconstrução subjetiva e no resgate da integridade psíquica.
Ao mesmo tempo, Mulheres que correm com os
lobos pode ser lido criticamente. Seu universalismo simbólico, ao falar de
um arquétipo feminino comum, corre o risco de apagar diferenças históricas,
culturais e materiais que atravessam as experiências das mulheres. Ainda assim,
o livro permanece relevante como uma obra de escuta e cuidado, sobretudo em um
mundo que continua exigindo das mulheres adaptação, docilidade e produtividade
em detrimento da vitalidade e do desejo.
Mais do que um manual de autoajuda, o livro se
apresenta como um percurso iniciático. Ele não promete respostas rápidas nem
soluções fáceis, mas oferece narrativas que acompanham processos longos,
dolorosos e, muitas vezes, solitários. Ler Clarissa Pinkola Estés é aceitar o
convite para descer às camadas profundas da psique, reconhecer perdas e
resgatar forças esquecidas. É um livro que fala de cura, mas não de uma cura
pacificada: trata-se de uma cura que passa pelo enfrentamento, pela memória e
pela reconciliação com aquilo que foi expulso da cultura dominante.
Clarissa Pinkola
Estés nasceu em Gary, Indiana, EUA, em 1945. É uma psicóloga Junguiana.


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