ENUMA ELISH: O POEMA MESOPOTÂMICO DA CRIAÇÃO
Tradução: Sueli Maria de Regino
EBOOK – 1ª ED. – 2019
64 páginas
Em Enuma Elish: o poema mesopotâmico da
criação, encontramos não apenas um mito cosmogônico, mas um texto
profundamente político, que narra a origem do mundo ao mesmo tempo em que
legitima uma nova ordem de poder. Diferente de mitologias centradas na geração
da vida como processo relacional, o Enuma Elish funda o cosmos a partir da
violência, do conflito e da vitória de um deus masculino sobre uma potência
feminina primordial.
A narrativa apresenta Tiamat, divindade
associada às águas caóticas e à matriz originária da vida, como ameaça que
precisa ser eliminada. Sua derrota por Marduk não é apenas um episódio mítico,
mas um gesto fundador: o mundo nasce do esquartejamento do corpo feminino,
reorganizado segundo uma lógica hierárquica, centralizada e soberana. A
criação, aqui, não é gestação nem continuidade, mas dominação e controle.
O poema reflete e legitima a transição
histórica para sociedades estatais e patriarcais na Mesopotâmia. Ao elevar
Marduk à condição de deus supremo, o Enuma Elish consagra uma estrutura de
poder vertical, militarizada e masculina, na qual a ordem só se estabelece
mediante a supressão do feminino caótico. O mito funciona, assim, como
narrativa de fundação do Estado, da soberania e da autoridade central,
naturalizando a violência como princípio organizador do mundo.
Há, nesse sentido, uma ruptura simbólica
fundamental em relação a mitologias mais antigas, nas quais o feminino aparece
como fonte da vida, da fertilidade e da continuidade cósmica. No Enuma Elish, o
feminino deixa de ser potência criadora e passa a ser ameaça a ser vencida.
Essa inversão não é apenas teológica, mas profundamente política e cultural,
marcando o início de um imaginário que associa ordem à masculinidade e caos à
feminilidade.
A leitura do poema hoje permite reconhecer
como certos fundamentos do pensamento ocidental — a separação violenta entre
natureza e cultura, a legitimação da guerra, a hierarquização dos corpos —
encontram raízes antigas. O mito não explica apenas como o mundo foi criado,
mas como uma determinada forma de poder passou a se apresentar como inevitável
e sagrada.
Ler o Enuma Elish é confrontar o
nascimento simbólico de uma civilização fundada na vitória, na exclusão e no
silenciamento do princípio feminino. É perceber que a história da criação
também é uma história de apagamentos — e que compreender esses mitos é
essencial para questionar as estruturas que ainda hoje organizam nossas formas
de pensar o mundo, o poder e o sagrado.

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