ANNA KARIÊNINA
LEV TOLSTOI
EDITORA 34 – 1ª ED. 2021
MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS
Anna Kariênina é um
romance que permanece mesmo quando a memória falha. O que fica, quase como
imagem inaugural, é o suicídio na linha do trem — um gesto extremo, atravessado
pelo desespero, que encerra uma trajetória marcada pelo desejo e pela exclusão.
Também permanece a lembrança de uma mulher que ama outro homem, fora do
casamento, e que por isso é progressivamente empurrada para fora do mundo
social.
Lido há muito tempo, Anna Kariênina se
fixa inicialmente nessa dimensão trágica: o amor proibido, a paixão
avassaladora, a punição final. Anna aparece como mais uma mulher que ousa
desejar e que paga caro por isso. Mas Tolstói é um escritor excessivamente rico
para se esgotar nessa leitura e talvez seja apenas na maturidade que suas
minúcias ganhem pleno sentido.
Por trás da história de Anna, há um retrato
minucioso e implacável da aristocracia russa do século XIX. Tolstói observa com
precisão quase clínica os rituais sociais, os códigos morais, as hipocrisias e
os privilégios de uma classe que se sustenta na aparência de ordem enquanto
vive de convenções vazias. O adultério masculino é tolerado; o feminino,
condenado. A moral não é ética, é social.
Anna não é punida apenas por amar outro homem,
mas por tornar visível aquilo que deveria permanecer oculto. Ela rompe o pacto
do silêncio. Ao insistir no amor e na legitimidade de seu desejo, ela expõe a
fragilidade das normas que organizam aquele mundo aristocrático. Sua queda é
menos moral do que política: ela não cabe mais no jogo social.
A releitura de Anna Kariênina promete
justamente isso: revelar as engrenagens que antes passavam despercebidas. Os
detalhes, os diálogos aparentemente banais, os gestos repetidos, as descrições
longas deixam de ser ornamento e passam a funcionar como crítica. Tolstói
desmonta sua classe por dentro, mostrando o vazio que sustenta seus valores.
Reler Anna Kariênina hoje é reencontrar
uma personagem trágica, mas também perceber que sua história está entrelaçada a
uma crítica profunda à sociedade que a condena. Anna morre nos trilhos, mas o
romance deixa claro que o trem já vinha em movimento muito antes — conduzido
por uma ordem social que não admite fissuras.
Lev Tolstói nasceu em Iasnaia, Poliana em 1828 e faleceu em
Astapovo, Ryazan, Rússia. Foi um escritor russo.


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