quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Anna Kariênina — desejo feminino e a crítica silenciosa da aristocracia

 

ANNA KARIÊNINA

LEV TOLSTOI

EDITORA 34 – 1ª ED. 2021

MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS

Anna Kariênina é um romance que permanece mesmo quando a memória falha. O que fica, quase como imagem inaugural, é o suicídio na linha do trem — um gesto extremo, atravessado pelo desespero, que encerra uma trajetória marcada pelo desejo e pela exclusão. Também permanece a lembrança de uma mulher que ama outro homem, fora do casamento, e que por isso é progressivamente empurrada para fora do mundo social.

Lido há muito tempo, Anna Kariênina se fixa inicialmente nessa dimensão trágica: o amor proibido, a paixão avassaladora, a punição final. Anna aparece como mais uma mulher que ousa desejar e que paga caro por isso. Mas Tolstói é um escritor excessivamente rico para se esgotar nessa leitura e talvez seja apenas na maturidade que suas minúcias ganhem pleno sentido.

Por trás da história de Anna, há um retrato minucioso e implacável da aristocracia russa do século XIX. Tolstói observa com precisão quase clínica os rituais sociais, os códigos morais, as hipocrisias e os privilégios de uma classe que se sustenta na aparência de ordem enquanto vive de convenções vazias. O adultério masculino é tolerado; o feminino, condenado. A moral não é ética, é social.

Anna não é punida apenas por amar outro homem, mas por tornar visível aquilo que deveria permanecer oculto. Ela rompe o pacto do silêncio. Ao insistir no amor e na legitimidade de seu desejo, ela expõe a fragilidade das normas que organizam aquele mundo aristocrático. Sua queda é menos moral do que política: ela não cabe mais no jogo social.

A releitura de Anna Kariênina promete justamente isso: revelar as engrenagens que antes passavam despercebidas. Os detalhes, os diálogos aparentemente banais, os gestos repetidos, as descrições longas deixam de ser ornamento e passam a funcionar como crítica. Tolstói desmonta sua classe por dentro, mostrando o vazio que sustenta seus valores.

Reler Anna Kariênina hoje é reencontrar uma personagem trágica, mas também perceber que sua história está entrelaçada a uma crítica profunda à sociedade que a condena. Anna morre nos trilhos, mas o romance deixa claro que o trem já vinha em movimento muito antes — conduzido por uma ordem social que não admite fissuras.


Lev Tolstói nasceu em Iasnaia, Poliana em 1828 e faleceu em Astapovo, Ryazan, Rússia. Foi um escritor russo. 


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